
Enquanto o mundo do trabalho teme ser substituído pela inteligência artificial em praticamente todas as funções, um caso recente expõe o lado oposto dessa revolução tecnológica — e levanta sérias dúvidas sobre os bastidores do setor.
Vivaldo José Breternitz (*)
Durante muito tempo, um grupo de desenvolvedores indianos trabalhou nos bastidores se passando por um sistema de IA. O objetivo? Permitir que a startup Builder.AI ganhasse credibilidade no mercado e captasse centenas de milhões de dólares de investidores desavisados.
A empresa, que chegou a ser avaliada em US$ 1,5 bilhão e era tida como uma das promessas da era da inteligência artificial, declarou falência recentemente. Em meio a balanços pouco claros, projeções de vendas infladas e uma tecnologia praticamente inexistente, revela-se agora o que pode ser uma das maiores fraudes do setor tecnológico dos últimos anos.
A Builder.AI se apresentava como uma plataforma capaz de desenvolver aplicativos personalizados de forma rápida e fácil – no centro dessa experiência, estava “Natasha”, uma suposta assistente virtual baseada em IA. No entanto, como se descobriu, Natasha não passava de uma fachada para um time de cerca de 700 programadores baseados na Índia, que executavam manualmente as demandas dos clientes.
Fundada em 2016 por Sachin Dev Duggal, a empresa nasceu com a promessa de democratizar a criação de software. Duggal, considerado um prodígio no mundo da tecnologia, chegou a atrair grandes investidores e parceiros como a Microsoft, além de fundos como a SoftBank (US$ 30 milhões em 2018), Qatar Investment Authority e Viola Credit, que injetaram juntos mais de US$ 445 milhões entre 2022 e 2023.
Apesar de rumores publicados pelo Wall Street Journal em 2020 já questionarem a tecnologia, a Builder.AI continuou crescendo. Foi apenas quando a Viola Credit, uma empresa de investimentos israelense, decidiu cobrar seu empréstimo de US$ 37 milhões que a empresa entrou em colapso.
A derrocada foi acelerada por denúncias de manipulação de dados financeiros, incluindo um suposto aumento fraudulento de 350% nas receitas. As suspeitas culminaram na substituição de Duggal no comando do conselho e no início de auditorias.
O golpe final veio com uma publicação no LinkedIn feita por Lina Beliunas, da empresa de análise Zero Hash, que revelou a existência dos 700 programadores indianos operando o que seria, na teoria, uma plataforma de IA.
O episódio levanta dúvidas sobre capacidade do mercado — em meio ao frenesi da inteligência artificial — de distinguir inovação real de lixo bem embalado.
(*) Doutor em Ciências pela Universidade de São Paulo, é professor e consultor – [email protected].


