
Dados mostram que 92% das vagas gerenciais exigem o idioma, mas país indica baixa proficiência; especialistas explicam como a IA e o trabalho remoto mudaram o jogo
A barreira entre um currículo promissor e a contratação definitiva no Brasil tem nome: o idioma inglês. Se antes o domínio da língua era um ‘plus’, hoje sua ausência funciona como um critério de desqualificação técnica em processos seletivos globais.
Segundo o Guia Salarial 2025 da consultoria Robert Half, o inglês já se consolidou como uma das quatro habilidades técnicas mais valorizadas, sendo requisito em 92% das vagas gerenciais no LinkedIn. Em áreas como tecnologia, marketing e finanças, o idioma aparece em mais de 70% de todas as oportunidades abertas.
O fim do “inglês passivo” e o filtro de operacionalidade
Para Fabiana Zandroski, Gerente de RH Estratégico da Employer Recursos Humanos, o mercado não aceita mais o inglês que apenas consta no papel. “O idioma tornou-se um requisito técnico de corte. O candidato muitas vezes possui uma excelente bagagem, mas deixa de avançar por falta de aderência operacional ao contexto da vaga, como a incapacidade de conduzir uma reunião com participantes internacionais ou gerir sistemas globais”, explica.
Segundo a executiva, a régua subiu porque o trabalho remoto internacional redefiniu o mercado. “Antes, o inglês era necessário para algumas multinacionais. Hoje, ele conecta o profissional brasileiro a oportunidades no mundo inteiro. Em muitos casos, a proficiência aplicada gera mais empregabilidade e segurança jurídica para a empresa do que uma pós-graduação”, pontua Fabiana.
Ela reforça que, se o inglês virou o básico, o novo diferencial está no repertório comportamental: “A habilidade técnica agora deve vir acompanhada de adaptabilidade e pensamento crítico para transformar informação em entrega de valor”.
Brasil na contramão da proficiência global
Apesar da urgência, o Brasil ainda escorrega. No EF English Proficiency Index 2025, o país ocupa a 75ª posição em um ranking de 123 nações, figurando na faixa de “baixa proficiência”. O cenário é crítico quando comparado a outros países em desenvolvimento, como Índia e Filipinas, que utilizaram o idioma como alavanca econômica para serviços globais.
Gustavo Silva, professor pesquisador e especialista em idiomas na Idioma Independente, destaca que o ensino tradicional é parte do entrave. “Muitos cursos ainda privilegiam a memorização gramatical mecânica, enquanto o mercado exige negociação, escrita objetiva e interação intercultural”, afirma.
Silva defende que o inglês deve ser compreendido como uma ferramenta de participação social. “Há uma diferença entre ‘saber inglês’ e ‘trabalhar em inglês’. O contexto profissional exige tomar decisões, argumentar e lidar com complexidades em outro idioma. É uma infraestrutura de trabalho, não um símbolo de status”.
A revolução da IA e a carreira após os 30
Um dos mitos derrubados pelos especialistas é a barreira da idade. Silva ressalta que a neuroplasticidade permite que profissionais acima dos 30 ou 40 anos alcancem a fluência com vantagens competitivas. “Adultos têm mais disciplina, motivação clara e um repertório profissional que facilita a compreensão de contextos de negócios”, diz o professor.
A Inteligência Artificial (IA) surge como a grande catalisadora dessa aceleração. “A IA democratizou o acesso. Hoje é possível simular entrevistas e praticar a fala diariamente de forma personalizada e gratuita”, afirma Fabiana.
No entanto, Gustavo faz uma ressalva importante para quem busca o nível “empregável” que leva, em média, de 6 a 12 meses para ser atingido: “A tecnologia ajuda na prática, mas não substitui a autonomia linguística. É preciso treinar o cérebro para retomar os códigos aprendidos e não depender apenas de traduções automáticas para não travar em uma negociação real”.
Como se tornar empregável em 2026
Confira 4 passos para destravar o inglês de negócios, segundo os especialistas:
• Defina o uso real: O primeiro passo é mapear se você precisa do inglês para reuniões, e-mails ou apresentações técnicas. A aprendizagem mais eficiente começa pela necessidade, não pela gramática pura;
• Consistência sobre intensidade: Especialistas indicam que é melhor estudar 15 minutos todos os dias do que concentrar horas em um único final de semana;
• Foco no “speaking”: O medo de falar ainda é a maior barreira. Segundo Gustavo Silva, “desenvolver a confiança é tão importante quanto o vocabulário. É um processo de empoderamento profissional”;
• Uso da IA como tutora: Utilize ferramentas de IA para corrigir e-mails e simular diálogos, mas foque em construir sua própria capacidade de argumentação.
Uso excessivo do inglês nas empresas e no ambiente on-line: como lidar? – Jornal Empresas & Negócios


