e Ana Luisa Winckler (*) Na reunião oficial, ela comunicou a demissão de 40% do time com serenidade.No post do LinkedIn, veio o vídeo: olhos marejados, voz embargada, fundo musical suave. Legenda em tom poético: “Hoje foi um dos dias mais difíceis da minha liderança. Chorei. Porque cuidar também dói.” A postagem viralizou.Aplausos pela coragem de sentir.Críticas pela estética de comercial de margarina com pegada de corte orçamentário.E no café da firma, alguém cochichou:“Chorou por nós… ou pelo engajamento?” Quando o choro é legítimo — e quando ele escorrega no roteiro Em um mundo corporativo que adora uma planilha, mas congela diante de uma lágrima, qualquer emoção vaza e já vira storytelling.Tem líder que sente demais, mas não sustenta a dor do outro.E tem líder que sente e segura a barra com afeto — sem jogar a bomba emocional no time. A diferença?A primeira é a liderança emocionada: aquela que sente muito, fala bonito… mas resolve pouco.A segunda é a liderança emocionante: aquela que sente junto, mas pensa além. Não romantiza. Cuida com consequência. Mas emoção de líder é sobre quem mesmo? Segundo Daniel Goleman (pai da inteligência emocional e possivelmente da expressão “respira e conta até 10”), a verdadeira maturidade emocional passa por autorregulação.Ou seja: sentir sim, mas sem transformar o fim da festa em monólogo dramático. Chorar não deslegitima.Mas se a lágrima escorre mais rápido que o plano de desligamento…A pergunta muda de tom:Será que é dor — ou é vaidade performática com trilha sonora da Celine Dion? Vulnerabilidade ou exposição com filtro? A querida Brené Brown já avisava: “Vulnerabilidade sem limites vira exposição. E exposição não é conexão.” Ou seja: não basta se emocionar — é preciso se responsabilizar.Porque se a equipe saiu com uma caixa de papelão nas mãos, e o líder saiu com um vídeo emocionante no feed… quem realmente ficou sem chão? Quem acolhe quem lidera? (e quem lidera acolhendo?) Tem colaborador que sai com um aviso prévio.Tem gestor que sai com 15 mil curtidas e um convite pra palestrar sobre “Liderança com Alma” — na empresa que acabou de cortar metade do time.Tem RH dizendo que vai “reforçar a escuta ativa” enquanto preenche mais uma planilha de desligamento.Tem colega abraçando no corredor… e depois correndo pra salvar o próprio crachá. E tem também quem só queria um café quente e um pouco de verdade no meio da comunicação estratégica.Porque emoção sem estrutura é só mais uma carga que sobra pros que ficam.E a empatia, quando mal dosada, vira débito emocional — com juros compostos de ressentimento. Rodapé da Liberdade Reflexão para quem quer humanizar sem romantizarSe sua vulnerabilidade pede palco mais do que pede reparo, talvez seja hora de conversar com a dor — não com o algoritmo.Chorar faz parte.Mas, se a sua lágrima sempre precisa de um post com 2 mil caracteres e uma hashtag sobre liderança,talvez o que esteja escorrendo não seja sentimento — seja carência de aplauso. (*) Psicóloga, escritora e rebelde […]