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O silêncio depois do arco-íris: por que as empresas recuaram no Mês do Orgulho em 2025?

em A Outra Sala
terça-feira, 24 de junho de 2025

Ana Luisa Winckler (*)

Esse ano foi diferente.
E o diferente, dessa vez, não é bom sinal.

Se você andou pelas redes sociais nas últimas semanas, deve ter percebido: menos bandeiras, menos campanhas, menos posts corporativos celebrando o Mês do Orgulho LGBTQIA+.

Aquele ritual colorido que virou quase previsível nos últimos anos – com logos pintados de arco-íris, frases de efeito e promessas de inclusão – parece ter perdido força em 2025.
Mas o que aconteceu?

Os dados falam (mesmo quando as marcas preferem não falar)

  • Uma pesquisa da Gravity Research mostra que 39% das empresas planejaram reduzir suas ações de Pride este ano, e nenhuma (exatamente: zero) afirmou que aumentaria seu engajamento em relação a 2024.
  • No Brasil, segundo a Folha de S.Paulo, marcas conhecidas optaram por uma postura mais discreta ou simplesmente silenciaram suas campanhas.
  • O medo de polarização, cancelamentos e boicotes se tornou, para muitas empresas, mais forte do que o compromisso com a diversidade.

E o que isso revela?
Que para muita gente, a defesa de direitos só é válida enquanto não ameaça a reputação.
Ou o faturamento.

A teoria explica o que o feed tentou esconder

A sociologia já falava sobre isso: o medo de conflito social gera o que chamamos de “desengajamento performático”.
Quando as tensões culturais crescem, as organizações que nunca fizeram um trabalho profundo de inclusão preferem “ficar quietas” ao invés de sustentar um posicionamento ético.

O nome técnico disso?
👉 Gestão de risco reputacional travestida de neutralidade.

Mas na prática… é só covardia institucionalizada.

Enquanto isso, na vida real das pessoas LGBTQIA+…

Se para algumas empresas o “problema” foi decidir se postavam ou não um logo colorido, para quem é LGBTQIA+ a dificuldade segue sendo:

  • Sobreviver à demissão por preconceito (41% já passaram por isso, segundo a Box1824 e Mais Diversidade, 2023).
  • Lidar com a falta de representatividade em cargos de liderança.
  • Navegar todos os dias num ambiente corporativo que cobra “discrição” como sinônimo de invisibilidade.
  • Engolir microviolências no café, na reunião e no feedback.

Enquanto o marketing silencia, as estatísticas gritam.

E antes que alguém diga: “Ah, mas estamos num cenário político delicado”…

Exatamente por isso.
Porque é nos contextos difíceis que os valores de uma organização se provam.
Defender direitos humanos só quando é fácil… nunca foi coragem.
É cálculo.

Perguntas para quem ainda tem a esperança de fazer diferente (mesmo com medo de perder uns likes):

  • A sua empresa só fala de inclusão quando é moda?
  • Quantas pessoas LGBTQIA+ estão nas decisões estratégicas aí dentro?
  • O programa de diversidade é uma área real ou só um PPT bonito?
  • O cuidado é só com o marketing… ou com as pessoas?

Para encerrar (porque junho vai acabar… mas o impacto das omissões não):

Este ano, o silêncio corporativo foi tão alto que pareceu um grito.
Mas ainda dá tempo de transformar esse vazio em ação concreta.

Inclusão não se mede em cliques.
Se mede em segurança, emprego, voz e permanência.

Porque orgulho não é um tema de calendário.
É um direito de existir… o ano inteiro.

(*) Psicóloga, escritora e rebelde afetuosa do mundo corporativo — onde transforma silêncio em escuta e vulnerabilidade em potência. Com 25 anos de RH na bagagem, ela cria espaços onde até a meta sorri e o KPI pede um café.