Ana Luisa Winckler (*)
Dizem que o luxo é para poucos.
Errado. O luxo é para muitos — mas só simboliza pertencimento para alguns.
E quem banca esse teatro todo é a classe média alta aspiracional: aquela que ganha entre R$ 10 mil e R$ 20 mil reais por mês, já fez intercâmbio em Brighton, conhece pelo menos três rótulos de vinho e sustenta até 70% do faturamento do mercado global de luxo, segundo o relatório Luxury Goods Worldwide Market Study da Bain & Company.
Ou seja: o luxo não é movido a helicópteros. Ele é movido a boleto.
E o que isso tem a ver com relações de trabalho? Tudo.
Essa mesma classe média que ralou, venceu, subiu na vida e agora ostenta o blazer certo no call com a diretoria é a que virou curadora do sucesso alheio.
São eles — e elas — que estão nos comitês de promoção, nos RHs estratégicos, nos cargos de gestão, nos podcasts sobre “liderança empática” dizendo coisas como: “aqui, todo mundo tem chance, basta se dedicar.”
Aham. Dedicação, né? E uma calça de alfaiataria com caimento europeu.
O problema não é o consumo. O problema é quando o consumo vira critério de valor humano.
Se você se veste bem, tem o tom certo de voz, uma boa postura, uma marca discreta e fala com segurança (mesmo que diga bobagem), você é lido como “pronto”.
Se você vem com uma mochila puída, sotaque de fora do eixo, cansaço visível ou roupas que não combinam com o dress code disfarçado da firma, você é lido como “em desenvolvimento”.
Mesmo que tenha três vezes mais repertório do que o tal gestor que nunca passou do PowerPoint.
E aí entra o ponto mais perverso de tudo isso: a base psicológica desse fenômeno é narcisicamente organizada.
O sujeito que consome luxo não está apenas comprando um item — ele está comprando uma confirmação simbólica de valor.
O luxo funciona como uma extensão do ego.
E quanto mais frágil a identidade, mais poderosa precisa ser a embalagem.
É o que o psicanalista Jacques Lacan chamaria de “eu ideal performando para o olhar do Outro”. É o que o capitalismo chama de branding pessoal. É o que o RH chama de “fit cultural”.
E o mais cruel: essa estética meritocrática não só define quem parece competente — ela exclui quem nunca teve como parecer.
Enquanto a empresa comemora o Dia da Diversidade com camiseta preta e logo colorido, quem tem cabelo crespo, pele preta, corpo gordo ou histórico fora do padrão segue aprendendo a se vestir com códigos que não foram feitos pra ela.
Porque o luxo virou código de acesso. E o RH virou o porteiro invisível.
Rodapé da Liberdade:
O verdadeiro luxo seria um ambiente onde você não precise esconder quem é pra ser promovido.
Mas isso não dá pra parcelar em 12x.
(*) É psicóloga, escritora e rebelde afetuosa do mundo corporativo — onde transforma silêncio em escuta e vulnerabilidade em potência. Com 25 anos de RH na bagagem, ela cria espaços onde até a meta sorri e o KPI pede um café.
