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Estamos preparando nossos filhos para o mercado que existiu, não para o mercado que eles vão encontrar

em Economia da Criatividade
quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Poucas decisões geram tanta ansiedade dentro de uma família quanto a escolha da carreira. Vejo isso com frequência quando converso com pais, estudantes e escolas. Existe um desejo genuíno de ajudar, mas muitas vezes esse apoio acaba sendo construído sobre referências de um mercado de trabalho que já mudou.

Durante décadas, escolher uma profissão significava buscar estabilidade. Era comum pensar em carreiras para a vida toda, construir uma trajetória linear e acreditar que uma boa decisão aos dezessete anos definiria o futuro profissional. Hoje, essa lógica já não representa a realidade da maioria dos jovens.

A inteligência artificial, a transformação digital e o surgimento de novas formas de trabalho estão mudando a velocidade com que profissões evoluem. Segundo o Future of Jobs Report 2025, do World Economic Forum, milhões de trabalhadores precisarão desenvolver novas competências até 2030, enquanto diversas funções serão profundamente transformadas pela tecnologia. Ao mesmo tempo, a OCDE reforça que aprender continuamente será uma das principais competências para a vida e para o trabalho.

Mesmo diante desse cenário, muitas famílias ainda concentram a conversa em uma única pergunta: “Qual profissão oferece mais segurança?” Na minha opinião, essa deixou de ser a pergunta mais importante. A pergunta que realmente ajuda um jovem é outra: “Que competências vão permitir que você continue crescendo, independentemente da profissão que exercer?”

Essa mudança de perspectiva reduz a ansiedade e amplia as possibilidades. Em vez de escolher uma carreira apenas pelo prestígio, pelo salário ou pela tradição, o estudante passa a refletir sobre seus interesses, valores, forma de aprender e capacidade de se adaptar às mudanças.

Outro desafio que observo é a comparação. As redes sociais fazem parecer que todos os jovens já descobriram sua vocação, foram aprovados na universidade perfeita e têm um plano de carreira definido. A realidade é muito diferente. A maioria ainda está tentando entender quem é, quais oportunidades existem e como construir seu próprio caminho.

Os pais têm um papel fundamental nesse processo. Não porque devam decidir pelos filhos, mas porque podem criar um ambiente seguro para que eles façam perguntas, experimentem possibilidades e desenvolvam autonomia. A melhor conversa sobre carreira não é aquela que entrega respostas prontas. É aquela que ajuda o jovem a pensar com mais clareza.

Ao longo da minha trajetória na educação internacional, aprendi que preparar um estudante para o futuro vai muito além de ajudá-lo a escolher uma graduação. Significa desenvolver competências, fortalecer o autoconhecimento e construir confiança para tomar boas decisões ao longo da vida.

O mercado continuará mudando. Novas profissões surgirão. Outras desaparecerão. O maior presente que podemos oferecer aos nossos filhos não é dizer qual caminho seguir. É ajudá-los a desenvolver a capacidade de construir novos caminhos sempre que necessário.

Porque a segurança profissional do século XXI não está em escolher a profissão certa. Está em formar pessoas capazes de aprender, adaptar-se e evoluir continuamente.

Referências

OECD. OECD Skills Outlook 2023: Skills for a Resilient Green and Digital Transition. Paris: OECD Publishing, 2023.

World Economic Forum. The Future of Jobs Report 2025. Geneva: World Economic Forum, 2025.

Carol Olival acredita que, em um mundo transformado pela inteligência artificial, a habilidade mais importante não é prever o futuro, mas aprender a tomar boas decisões. Especialista em marketing para instituições educacionais, pesquisadora e Community Outreach Director da Full Sail University no Brasil, dedica sua carreira a aproximar educação, tecnologia e desenvolvimento humano. É autora do livro Você Não Precisa Saber Agora e, nesta coluna, convida o leitor a refletir sobre os desafios e as oportunidades de aprender, escolher e evoluir em um cenário de mudanças constantes.

A tecnologia substitui a criatividade humana? | Jornal Empresas & Negócios