
Nos últimos anos, o Brasil passou por uma transformação silenciosa, mas profunda, no perfil das famílias. Dados de pesquisa da Fundação Getulio Vargas (FGV), com base no IBGE, mostram que mais de 41 milhões de domicílios brasileiros são hoje chefiados por mulheres. O número reflete não apenas maior autonomia feminina, mas também o acúmulo de responsabilidades financeiras em um cenário cada vez mais complexo.
Ao mesmo tempo, a digitalização ampliou o acesso ao sistema financeiro, especialmente entre os jovens. Segundo o Banco Central, o número de pessoas entre 15 e 29 anos com acesso ao crédito dobrou em oito anos, passando de 13,7 milhões em 2016 para 27,6 milhões em 2024. Cerca de 70% desses jovens pertencem a famílias com renda de até dois salários mínimos, o que aumenta a vulnerabilidade diante do uso inadequado do crédito.
Nesse contexto, o papel das mães ganha ainda mais relevância, não apenas como gestoras do orçamento doméstico, mas como agentes diretas na formação da consciência financeira das novas gerações.
Protagonismo feminino e os desafios invisíveis da gestão financeira – O avanço das mulheres como principais provedoras do lar representa uma mudança estrutural na sociedade brasileira. No entanto, esse protagonismo ainda convive com desafios importantes, como a sobrecarga de funções e o acesso desigual à renda e à informação financeira.
“Mães fazem verdadeiros milagres financeiros no Brasil. Elas administram recursos limitados, tomam decisões difíceis e ainda sustentam o equilíbrio da casa. E muitas vezes fazem isso sem apoio ou orientação adequada”, afirma Ana Leoni, especialista em comportamento financeiro e cofundadora da Bem Educação.
Além disso, embora sejam responsáveis pelas decisões de consumo, muitas mulheres ainda não se sentem seguras para investir ou planejar o futuro financeiro de forma estruturada. “Cabe a nós mães buscar informações, tomar as rédeas da nossa vida financeira e nos tornarmos exemplos para nossos filhos, de como preservar o nosso dinheiro e alcançar uma vida financeira equilibrada”, reforça a especialista.
Jovens com mais acesso ao crédito e menos preparo – A ampliação do acesso ao sistema financeiro trouxe praticidade, mas também novos riscos. Hoje, 96,4% dos adultos brasileiros possuem conta bancária ou de pagamento, e 88% são usuários ativos, segundo o Banco Central. O celular se consolidou como principal canal, com o volume de transações financeiras tendo crescido seis vezes entre 2020 e 2024.
Na prática, isso significa que o dinheiro se tornou mais abstrato e imediato. O brasileiro mantém, em média, de 6 a 7 relacionamentos com instituições financeiras, entre bancos, fintechs e aplicativos, o que resulta em múltiplos cartões, contas e limites disponíveis.
“Estamos diante de uma geração que tem acesso facilitado ao crédito, mas que muitas vezes não recebeu educação financeira suficiente para lidar com isso. Ensinar sobre dinheiro hoje é também ensinar independência e responsabilidade”, explica Ana Leoni. Esse cenário reforça a importância da atuação das famílias, na mediação dessa relação com o dinheiro desde cedo.
Educação financeira começa em casa, mas também passa pela escola – Além do ambiente familiar, a escolha da escola também influencia diretamente na formação das crianças e jovens. Segundo levantamento do portal Melhor Escola (2023), 58,44% dos pais consideram a segurança o principal critério na escolha da instituição, seguido da localização (56,55%) e da proposta pedagógica (54,63%).
Para Ana Leoni, é fundamental ampliar esse olhar. “As famílias precisam começar a avaliar também se a escola inclui educação financeira de forma consistente. Não vale aprender só na escola, mas a escola pode ser uma grande aliada nesse processo.”
Ela destaca que o aprendizado financeiro deve ser contínuo e integrado ao cotidiano. “À medida que o Dia das Mães se aproxima, é importante aproveitar o momento para destacar o papel crucial que as mães desempenham ao conversar sobre dinheiro em casa e, mais do que isso, ao serem exemplo de alguém que cuida das finanças.”
O papel das mães na formação de hábitos financeiros – A influência do ambiente familiar é decisiva na construção da relação com o dinheiro. Segundo pesquisa da Serasa, 85% dos pais e mães já conversam sobre educação financeira com seus filhos, o que demonstra avanço na abertura desse diálogo. “É nesse espaço de conversa que se constrói a base para decisões mais conscientes no futuro”, afirma Ana Leoni.
Mais do que ensinar conceitos, o comportamento dos pais funciona como referência direta para os filhos. Em um cenário de consumo facilitado e crédito acessível, essa influência se torna ainda mais relevante.
Caminhos práticos para fortalecer a educação financeira nas famílias – Diante desse contexto, algumas ações podem ajudar mães e famílias a desenvolver uma relação mais saudável com o dinheiro:
• Incentivar o diálogo sobre finanças – Conversar abertamente sobre orçamento, escolhas e prioridades ajuda a naturalizar o tema e reduzir tabus.
• Dar exemplo no dia a dia – Evitar compras impulsivas, planejar gastos e demonstrar organização financeira são atitudes que influenciam diretamente os filhos.
• Avaliar a educação financeira na escola – Considerar se a instituição aborda o tema de forma estruturada pode complementar o aprendizado doméstico.
• Preparar para o uso consciente do crédito – Orientar jovens sobre limites, juros e planejamento é essencial diante do aumento do acesso a produtos financeiros.
• Planejar o futuro desde cedo – Introduzir conceitos como poupança, investimento e aposentadoria ajuda a construir segurança ao longo da vida.
Um legado que vai além do dinheiro – A educação financeira não se limita ao controle de gastos, mas envolve autonomia, planejamento e visão de futuro. Em um país onde 92% dos aposentados dependem exclusivamente do INSS, segundo a Anbima, e onde a população idosa deve crescer significativamente nas próximas décadas, preparar as novas gerações se torna uma necessidade urgente.
“Mães que ensinam sobre dinheiro estão, na verdade, ensinando sobre liberdade e segurança. O cuidado com as finanças pessoais é uma das formas mais efetivas de garantir que um ciclo de dependência financeira, por exemplo, não se perpetue nas próximas gerações”, conclui Ana Leoni. Neste Dia das Mães, o reconhecimento vai além do cuidado diário. Ele passa também pelo papel fundamental que essas mulheres desempenham na construção de um futuro financeiro mais equilibrado para toda a sociedade. Afinal, dinheiro também é assunto de mamães.
Dia das Mães: como criar uma estratégia de marketing campeã – Jornal Empresas & Negócios


