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Deus Podia Ter Dado Bom Senso. Mas Deu Livre-Arbítrio.

em A Outra Sala
terça-feira, 02 de junho de 2026

Talvez Deus Tenha Sido Otimista Demais.

Ana Luisa Winckler (*)

Outro dia vi mais uma discussão sobre inteligência artificial.

Na verdade, essa frase já envelheceu mal.

Porque, neste momento, existem aproximadamente 37 discussões simultâneas sobre inteligência artificial acontecendo no LinkedIn.

Tem os otimistas.

Tem os apocalípticos.

Tem os que descobriram o ChatGPT há três dias e já estão explicando o futuro da humanidade em um carrossel com fundo azul.

Mas quanto mais acompanho essas conversas, mais tenho a sensação de que estamos discutindo a pergunta errada.

Porque talvez o tema não seja inteligência artificial.

Talvez o tema seja realidade.

Durante séculos, as sociedades compartilharam referências comuns. As pessoas liam os mesmos jornais, assistiam aos mesmos programas e, apesar das divergências, partiam de uma compreensão relativamente parecida sobre o que estava acontecendo no mundo.

Hoje isso está desaparecendo.

Cada feed é uma realidade.

Cada algoritmo é um editor.

Estamos entrando numa era em que duas pessoas podem olhar para o mesmo mundo e habitar universos mentais completamente diferentes.

Talvez o maior desafio das lideranças da próxima década não seja alinhar metas.

Talvez seja alinhar percepções.

Enquanto isso, seguimos fascinados pela automação.

Mas existe outra automação acontecendo.

Mais silenciosa.

Mais íntima.

A automação do pensamento.

Primeiro terceirizamos a memória.

Depois a navegação.

Agora começamos a terceirizar síntese, interpretação, pesquisa, escrita e decisão.

Por isso a pergunta que mais me intriga não é:

“Você usa inteligência artificial?”

A pergunta é:

Quais partes da sua mente você ainda opera manualmente?

O verdadeiro divisor de águas talvez não seja entre quem usa IA e quem não usa.

Mas entre quem a utiliza como ferramenta e quem passa a funcionar como extensão dela.

Curiosamente, quanto mais avançamos tecnologicamente, mais valiosas ficam capacidades que pareciam banais.

Discernimento.

Julgamento.

Contexto.

Capacidade de sustentar dúvida ou de mudar de ideia.

Aliás, arrisco dizer que uma das competências mais subestimadas do século XXI é interpretação de texto.

Durante anos ouvimos que falta amor no mundo.

Concordo.

Mas, sinceramente, falta muito mais interpretação de texto.

Basta abrir qualquer rede social para encontrar pessoas brigando contra argumentos que ninguém apresentou, respondendo perguntas que ninguém fez e transformando nuances em guerras civis digitais.

A tecnologia evoluiu.

A leitura nem sempre acompanhou.

Nunca tivemos tantas ferramentas para pensar.

Mas talvez estejamos exercitando cada vez menos o pensamento.

É como comprar uma academia completa para a sala de casa e terceirizar os exercícios para o vizinho.

Você continua pagando a mensalidade. Mas os músculos não são seus.

E aqui chegamos ao ponto que mais me interessa.

A próxima desigualdade talvez não seja econômica.

Talvez seja cognitiva.

Porque, em um mundo onde algoritmos disputarão atenção, emoção, opinião, consumo, voto e comportamento, a habilidade mais valiosa não será aprender a usar uma ferramenta.

Será aprender a não ser conduzido por ela.

Às vezes penso que Deus poderia ter colocado algumas coisas no kit de boas-vindas da espécie.

Bom senso, por exemplo.

Discernimento seria uma boa escolha.

Curiosidade intelectual também não faria mal.

Mas não.

Recebemos livre-arbítrio.

Uma decisão ousada, olhando retrospectivamente.

Porque boa parte da história humana pode ser descrita como uma sequência de pessoas usando sua liberdade para ignorar fatos, evidências, contexto e consequências.

Talvez por isso a discussão sobre inteligência artificial seja mais profunda do que parece.

Não porque as máquinas estejam prestes a decidir tudo por nós.

Mas porque podemos começar a abrir mão, voluntariamente, da única coisa que sempre nos tornou verdadeiramente humanos: a responsabilidade de escolher, refletir e julgar.

Durante décadas associamos elite a dinheiro.

Depois associamos elite a conhecimento.

Talvez a definição esteja mudando outra vez.

Talvez a nova elite seja formada por pessoas capazes de preservar autonomia mental em um ambiente desenhado para capturá-la.

Pessoas capazes de consumir informação sem serem consumidas por ela.

Pessoas capazes de usar algoritmos sem entregar a eles o volante.

Porque talvez o maior risco da inteligência artificial não seja ela ficar inteligente demais.

Talvez seja nós desaprendermos justamente aquilo que nos trouxe até aqui.

Quando olho para as discussões sobre China, inteligência artificial e futuro do trabalho, suspeito que estamos observando apenas a camada visível da transformação.

Os robôs são impressionantes.

Os algoritmos também.

Mas talvez a pergunta mais importante não seja o que as máquinas estão aprendendo.

Talvez seja o que nós estamos desaprendendo.

Porque, no final das contas, o futuro não será decidido apenas pela inteligência das máquinas.

Será decidido pela capacidade humana de continuar exercendo algo que nenhum algoritmo consegue fazer por nós:

a responsabilidade de pensar.

(*) Psicóloga, escritora e rebelde afetuosa do mundo corporativo — onde transforma silêncio em escuta e vulnerabilidade em potência. Com 25 anos de RH na bagagem, é CEO da Prisma Consultoria, e cria espaços onde até a meta sorri e o KPI pede um café.

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