238 views 5 mins

As decisões ruins das empresas raramente começam com má intenção

em A Outra Sala
terça-feira, 17 de março de 2026

Ana Luisa Winckler (*)

Elas começam com um viés confortável.

Existe um mito elegante dentro das empresas.

O mito de que decisões ruins nascem de más intenções.

É uma narrativa reconfortante.
Porque transforma o problema em caráter.

Mas a verdade costuma ser bem menos dramática.

A maior parte das decisões ruins nasce de boas intenções guiadas por vieses invisíveis.

E isso acontece porque o cérebro humano tem um pequeno defeito de fabricação.

Ele não foi projetado para decidir bem.

Foi projetado para decidir rápido e parecer coerente depois.

Quem estudou isso profundamente foi Daniel Kahneman.

O que ele mostrou é desconcertante.

A decisão quase sempre vem primeiro.

A explicação vem depois.

Ou seja: muitas vezes não pensamos para decidir.

Decidimos… e depois pensamos para justificar.

É nesse intervalo que nascem algumas das cenas mais conhecidas da vida corporativa.

Um gestor tem uma impressão vaga sobre alguém da equipe.

Dias depois, ele já tem argumentos sólidos.

Sem perceber, seu cérebro passou a selecionar apenas as evidências que confirmam a impressão inicial.

Isso não é perseguição.

É viés de confirmação.

Outro líder insiste num projeto que claramente não funciona.

Mas já foram dois anos de investimento, três apresentações estratégicas e muitas promessas feitas em reuniões.

O cérebro entra em modo de autopreservação.

Ele prefere continuar errado do que admitir que estava errado.

Isso se chama custo irrecuperável.

Outro executivo promove alguém porque “tem presença”.

A pessoa fala bem, tem segurança e ocupa bem a sala.

Em segundos o cérebro preenche o resto da história: competente, estratégico, preparado.

Isso se chama efeito halo.

E talvez a cena mais comum de todas: uma reunião onde todos concordam rapidamente.

Nada de conflito.
Nada de tensão.

Tudo flui.

As pessoas saem da sala com a agradável sensação de alinhamento.

O problema é que muitas vezes aquilo não é alinhamento.

É conformidade social.

O cérebro humano detesta duas coisas: incerteza e discordância pública.

Então ele resolve rápido.

Concorda.

O curioso é que, quando olhamos para essas situações depois que algo deu errado, elas parecem absurdas.

“Como ninguém percebeu?”

Mas na hora tudo parecia razoável.

Porque vieses cognitivos são como filtros de câmera.

Eles não inventam a realidade.

Apenas destacam certas partes e apagam outras.

E assim surgem decisões que parecem racionais, profissionais e estrategicamente defendidas.

Mas que na prática são apenas histórias bem contadas pelo cérebro.

Por isso existe uma pergunta que deveria aparecer mais nas reuniões estratégicas.

Uma pergunta simples, mas perigosamente honesta: Estamos analisando fatos… ou apenas defendendo uma impressão inicial?

Essa pergunta costuma provocar silêncio.

E o silêncio, nas organizações, quase sempre significa que alguém acabou de tocar num ponto real.

Porque decisões ruins raramente começam com má intenção.

Começam com algo muito mais humano.

Um cérebro tentando simplificar o mundo.

E um grupo inteiro acreditando nessa simplificação.

Até que a realidade decida participar da reunião.

E a realidade, como sabemos, não costuma pedir a palavra.

Ela simplesmente entra.

(*) Psicóloga, escritora e rebelde afetuosa do mundo corporativo — onde transforma silêncio em escuta e vulnerabilidade em potência. Com 25 anos de RH na bagagem, é CEO da Prisma Consultoria, e cria espaços onde até a meta sorri e o KPI pede um café.