Anderson Arcenio (*)
Boris Cherny, criador do Claude Code, ferramenta de programação assistida por inteligência artificial utilizada pela Anthropic e por desenvolvedores em todo o mundo, publicou recentemente uma reflexão que ajuda a explicar uma das principais transformações no mercado de tecnologia: as fronteiras entre engenharia, produto, design e dados estão deixando de existir. Ao observar o próprio time, ele identificou cinco perfis de trabalho. Há quem gere novas ideias constantemente, quem transforme essas ideias em produtos, quem refine interfaces e simplifique o código, quem impulsione o crescimento da solução e quem mantenha o sistema estável à medida que ele escala.
A principal conclusão, porém, não está nos perfis, mas no fato de que eles deixaram de estar associados a cargos específicos. No mesmo time, designers, engenheiros e profissionais de produto transitam entre diferentes funções conforme a necessidade do projeto. Em muitos casos, uma mesma pessoa assume dois ou três desses papéis ao longo da semana. A mudança rompe com um modelo que predominou por anos na indústria, baseado em funções bem delimitadas e responsabilidades rígidas. Com ferramentas de inteligência artificial cada vez mais capazes, profissionais experientes conseguem prototipar, desenvolver e aprimorar soluções que antes exigiam equipes maiores e altamente especializadas.
Nesse cenário, o diferencial deixa de ser o cargo ocupado e passa a ser a capacidade de resolver problemas. A inteligência artificial, nesse contexto, não substitui o profissional, mas amplia sua capacidade de atuação e reduz a dependência de múltiplos especialistas para determinadas etapas do desenvolvimento de um produto.
Para startups em estágio inicial, essa mudança é ainda mais evidente. Diferentemente de grandes empresas, que conseguem distribuir responsabilidades entre equipes numerosas, negócios em fase de crescimento precisam entregar o mesmo resultado com estruturas enxutas. Formar um time experiente dedicado nem sempre é financeiramente viável e, muitas vezes, sequer faz sentido nesse estágio.
É nesse contexto que ganham espaço as squads multidisciplinares. Em vez de reunir profissionais restritos a uma única especialidade, essas equipes são capazes de atuar em diferentes frentes ao longo do ciclo de vida do produto: validar ideias, desenvolver soluções, aprimorar a experiência, iterar até encontrar aderência ao mercado e sustentar a operação conforme ela cresce.
A reflexão de Cherny aponta para uma mudança mais ampla no mercado de tecnologia. As funções continuam existindo, mas as fronteiras entre elas se tornam cada vez menos relevantes. Para empresas em crescimento, a questão deixa de ser quantos especialistas contratar e passa a ser qual estrutura consegue resolver o problema de ponta a ponta. Nesse cenário, a vantagem competitiva não está necessariamente em equipes maiores, mas em profissionais e times capazes de transitar entre diferentes papéis sem perder velocidade na execução.
(*) CEO da Next Squad, especializada na construção e evolução de soluções digitais para startups e empresas em diferentes estágios de crescimento. https://nextsquad.com.br/

