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A Economia da Opinião Pronta

em A Outra Sala
terça-feira, 23 de junho de 2026

Ana Luisa Winckler (*)

A Preguiça Cognitiva Virou Modelo de Negócio

Nunca houve tanta gente opinando.

E talvez nunca tenha sido tão raro encontrar alguém pensando.

Não são a mesma coisa.

Outro dia me deparei com um vídeo ensinando a forma correta de tomar banho.

Tomar banho.

Uma atividade que a humanidade executa há alguns milhares de anos sem consultoria especializada.

Ri.

Depois fiquei intrigada.

Porque talvez o problema não seja mais o banho.

Talvez seja o fato de que estamos terceirizando coisas cada vez mais profundas: o que vestir, o que comer, o que sentir, em quem acreditar e, cada vez mais, o que pensar.

Vivemos um fenômeno curioso.

Temos acesso instantâneo a mais informação do que qualquer geração da história. Ainda assim, parecemos cada vez mais dependentes da interpretação dos outros.

Diante de um assunto complexo, muita gente já não pergunta:

“O que eu penso sobre isso?”

Pergunta:

“Quem eu sigo que já pensou sobre isso por mim?”

A ciência tem algo a dizer sobre esse fenômeno.

Nosso cérebro é programado para economizar energia. Pensar profundamente exige esforço. Revisar crenças produz desconforto. Conviver com dúvidas gera ansiedade.

Por isso utilizamos atalhos mentais o tempo todo.

O psicólogo Daniel Kahneman mostrou que grande parte das nossas decisões acontece por processos rápidos, intuitivos e automáticos. Primeiro sentimos. Depois racionalizamos.

Gostamos de acreditar que pensamos para decidir.

Frequentemente decidimos e depois pensamos em argumentos para justificar a decisão.

O cérebro humano é menos um juiz imparcial e mais um advogado brilhante defendendo suas próprias convicções.

Mas existe um ingrediente novo nessa história: os algoritmos.

Se antes dependíamos da opinião do vizinho, do jornal ou daquele tio que sabe tudo sobre tudo, agora carregamos uma multidão de influenciadores no bolso.

E eles entenderam algo muito importante:

Opinião vende.

Reflexão demora.

Dúvida não viraliza.

Complexidade não cabe em quinze segundos.

Vivemos numa economia da certeza instantânea.

Toda semana surge uma nova pauta, uma nova indignação, um novo julgamento coletivo. Em poucas horas, milhares de pessoas já possuem uma opinião definitiva sobre algo que sequer tiveram tempo de compreender.

E aqui mora um dos maiores riscos.

Não o excesso de informação.

Mas a ilusão de pensamento.

A sensação confortável de que refletimos sobre um tema quando, na verdade, apenas adotamos uma posição pronta.

A psicologia social chama atenção para outro fator importante: pertencimento.

Seres humanos não buscam apenas verdade.

Buscam aceitação.

Diversos estudos mostram que muitas pessoas preferem concordar com o grupo a sustentar uma posição divergente, mesmo quando percebem inconsistências.

Discordar pode gerar desconforto.

Pertencer gera segurança.

E segurança costuma vencer.

Talvez por isso estejamos cercados por aquilo que chamo de “memes cognitivos”.

Ideias simplificadas, embaladas para consumo rápido, repetidas até parecerem pensamento próprio.

Algumas são úteis.

Outras perigosas.

Todas economizam trabalho mental.

O problema é que pensamento crítico funciona de outro jeito.

Ele exige pausa, exige investigação, exige a capacidade de dizer: “não sei ainda”.

E talvez esta seja uma das competências mais ameaçadas do nosso tempo.

Não a inteligência. A tolerância à incerteza.

Pensar exige um encontro com aquilo que ainda não está resolvido.

Opinar exige apenas conexão com aquilo que já confirma nossas crenças.

É mais confortável. Mais rápido.

E muito mais recompensador para um cérebro acostumado à dopamina das notificações.

No fim, a questão talvez seja menos tecnológica e mais humana.

A internet não inventou a necessidade de pertencimento.

Não criou os vieses cognitivos.

Não produziu nossa dificuldade em lidar com dúvidas.

Ela apenas transformou tudo isso em escala industrial.

Por isso, talvez a pergunta mais importante deste tempo não seja “qual é a sua opinião?”.

Talvez seja: Quando foi a última vez que você mudou de ideia depois de pensar profundamente sobre alguma coisa?

Porque terceirizar a limpeza da casa pode ser uma excelente estratégia.

Terceirizar a própria consciência já parece um negócio um pouco mais arriscado.

(*) Psicóloga, escritora e rebelde afetuosa do mundo corporativo — onde transforma silêncio em escuta e vulnerabilidade em potência. Com 25 anos de RH na bagagem, é CEO da Prisma Consultoria, e cria espaços onde até a meta sorri e o KPI pede um café.

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