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Davos fala do futuro do trabalho. O mercado brasileiro vive o custo dele agora.

em A Outra Sala
terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Ana Luisa Winckler (*)

O futuro do trabalho e o elefante cansado na sala

Em Davos, o futuro do trabalho soa sempre elegante.
A inteligência artificial “vai ampliar empregos, não substituir pessoas”, dizem CEOs globais com convicção – como Satya Nadella (CEO da Microsoft e uma das principais vozes globais sobre tecnologia, IA e liderança na economia digital).

É uma frase bonita. Tranquilizadora. Quase terapêutica.

Aqui no Brasil, ela costuma ganhar uma tradução prática: o trabalho continua existindo, sim, só ficou mais rápido, mais complexo e com menos tempo para aprender.
A vaga não some. A margem de erro, sim.

Enquanto isso, o futuro chega sem legenda: por e-mail às 23h, por uma call que “podia ser um áudio”, por um afastamento médico discreto, por um pedido de demissão “por motivos pessoais”.

Não é falta de visão.
É excesso de descompasso.

A IA chegou. O humano ficou para a próxima sprint.

Em Davos, o consenso foi claro: IA deixou de ser tendência e virou infraestrutura econômica.
Produtividade, crescimento, escala, tudo passa por ela.
“Os ganhos de produtividade vão impulsionar o crescimento”, reforçou Larry Fink (CEO da BlackRock, maior gestora de ativos do mundo, e uma das vozes mais influentes do capitalismo financeiro global.)

No Brasil, isso já aparece no varejo, nos bancos, nas áreas comerciais, no atendimento, no RH.
Metas são recalculadas porque “a tecnologia ajuda”.
Processos aceleram porque “agora é possível”.

O que raramente entra na conta é o humano tentando acompanhar essa aceleração sem redesenho real do trabalho.
A IA aprende rápido.
As pessoas, nem sempre, especialmente quando estão exaustas.

O resultado não é inovação.
É cansaço operacional high-tech.

O custo que não cabe no PowerPoint

Em Davos, fala-se muito de produtividade.
Aqui, o mercado responde com turnover alto, lideranças intermediárias exaustas e um cinismo organizacional cada vez mais sofisticado.

Nada disso aparece no slide do resultado trimestral.
Mas aparece no atraso das entregas, na perda de talentos-chave e na baixa qualidade das decisões.

Tem muita empresa achando que está “fazendo o possível”,
quando na prática está apenas adiando a conta.

E ela sempre chega. Com juros.

ESG, gente e a arte de parecer sem sustentar

“Sustentabilidade precisa incluir pessoas”, reforçou Klaus Schwab (fundador e presidente do World Economic Forum, principal articulador global das agendas de Davos sobre economia, governança e futuro do trabalho) em Davos.
Outra frase correta. Necessária. Incontestável.

Aqui, o “S” do ESG costuma virar campanha, palestra e relatório bem diagramado, enquanto o cotidiano segue operando no modo:

  • excesso normalizado
  • medo de errar
  • liderança promovida sem preparo relacional
  • resiliência confundida com aguentar calado

Não é hipocrisia deliberada.
É falta de integração entre discurso e desenho real do trabalho.

E isso não é um problema do RH.
É um problema de negócio e liderança.

O futuro do trabalho não é pauta de RH. É decisão estratégica.

Em Davos, repete-se como mantra que será preciso “requalificar pessoas em escala sem precedentes”.
A frase ecoa nos fóruns do World Economic Forum com entusiasmo.

Na prática brasileira, ela costuma significar: aprenda algo completamente novo sem parar de entregar, sem errar e sem parecer obsoleto.

Reskilling vira esforço individual.
Aprendizado vira tarefa noturna.
E o sistema segue intacto.

Empresas que começam a entender o limite desse modelo fazem algo simples, e raro: revisam liderança antes de acelerar tecnologia.
Tratam saúde mental como risco operacional.
Chamam RH e negócio para decidir juntos, não só para comunicar decisões já tomadas.

Não por bondade.
Por inteligência estratégica.

Talvez Davos esteja falando menos de futuro – e mais de limite

Talvez o principal recado de Davos não seja sobre o que vem.
Mas sobre o que já não dá mais para sustentar.

O líder incansável.
A adaptação infinita.
A ideia de que propósito resolve contradições estruturais.

“O futuro do trabalho é sobre propósito e significado”, disseram em vários painéis.
Aqui, isso costuma soar como: encontre sentido, mas não questione o modelo.

Propósito sem coerência vira cinismo premium.

O futuro do trabalho não pede líderes mais inspiradores.
Pede líderes mais responsáveis pelo sistema que comandam.

E esse é o convite real – para CEOs, conselhos, lideranças e RHs como parceiros estratégicos: menos palco, mais revisão de escolhas.

Porque a pergunta que realmente importa não é:

“Como preparar a empresa para o futuro?”

Mas:

Que tipo de gente essa empresa consegue sustentar enquanto cresce?

Essa pergunta não cabe só em Davos.
Ela cabe – e começa – aqui.

O futuro do trabalho não será decidido por quem fala sobre pessoas,
mas por quem assume responsabilidade pelo sistema que as esgota, ou as sustenta.

(*) Psicóloga, escritora e rebelde afetuosa do mundo corporativo — onde transforma silêncio em escuta e vulnerabilidade em potência. Com 25 anos de RH na bagagem, é CEO da Prisma Consultoria, e cria espaços onde até a meta sorri e o KPI pede um café.