Ana Luisa Winckler (*)
Existe uma ideia atribuída a Immanuel Kant que sempre reaparece, meio deslocada, meio provocadora:
Você só é livre quando não faz o que quer.
No mundo corporativo, essa frase soa quase como afronta.
Aqui, liberdade costuma ser confundida com autonomia de agenda, cargo bonito e a sensação de que “ninguém manda em mim”, desde que você entregue tudo, sorria nas reuniões e não questione demais.
Mas Kant não estava falando de chefe.
Nem de empresa.
Nem de carreira.
Ele falava de algo bem mais íntimo (e bem menos instagramável): não ser governado pelos próprios impulsos, desejos e conveniências.
Traduzindo para o cotidiano profissional: não é livre quem faz tudo o que quer.
É livre quem consegue não fazer, mesmo podendo.
Essa ideia ganhou versões mais pedagógicas ao longo do tempo. Palestras famosas ajudaram a organizar o raciocínio em fórmulas do tipo “nem tudo que eu quero, posso; nem tudo que posso, devo”. Funciona. Dá ordem. Dá contorno.
Mas a vida real é menos didática.
Na lente prismática, liberdade não se resolve em silogismo.
Ela aparece no atrito – entre desejo, corpo, ética e consequência.
Porque, na prática, o problema raramente é querer demais.
O problema é querer o que não serve mais, poder o que cobra caro e aceitar pedidos que sequestram pedaços inteiros da vida.
Então, se essa provocação filosófica tivesse que ganhar uma versão menos comportada – e mais honesta com a experiência – ela soaria assim:
Nem tudo que eu quero me serve.
Nem tudo que posso me convém.
Nem tudo que pedem merece um sim.
Não é sobre dever moral.
É sobre custo existencial.
Liberdade, na versão prismática, não é fazer a escolha certa no papel.
É fazer escolhas que não te desmontam depois.
No trabalho, isso significa perceber que:
– nem toda oportunidade é avanço
– nem toda demanda é prioridade
– nem todo desejo é seu
– nem todo “sim” é maturidade
Às vezes, liberdade é só conseguir não responder aquele e-mail.
Não entrar naquela reunião.
Não aceitar aquele papel que o ego quer, mas o corpo já recusou.
Kant chamaria isso de autonomia.
O mercado chama de falta de ambição.
A saúde mental chama de alívio.
Na Outra Sala, a gente chama de outra coisa:
liberdade com bordas.
E talvez seja exatamente isso que mais falte em ambientes que juram oferecer liberdade total.
(*) Psicóloga, escritora e rebelde afetuosa do mundo corporativo — onde transforma silêncio em escuta e vulnerabilidade em potência. Com 25 anos de RH na bagagem, é CEO da Prisma Consultoria, e cria espaços onde até a meta sorri e o KPI pede um café.
