Neiva Dourado Martins Mendes (*)
Há conquistas que cabem em relatórios e há valores que só aparecem na maneira como uma equipe pensa, decide e entrega. Quando olho para a Blue6ix, empresa de tecnologia e CX que fundei há 8 anos, entendo que os números refletem muito da nossa história. Foram mais de 63 milhões de interações analisadas, mais de 6.600 insights produzidos, 2.500 projetos realizados e cerca de 4.000 estudos entregues. Mas, apesar da expressividade desses dados, existe algo que me chama mais atenção do que a grandeza dos resultados: não me lembro de uma única situação em que um cliente tenha questionado a integridade das nossas conclusões.
Não porque sejamos infalíveis, porque definitivamente não somos. Somos humanos, erramos, revisamos hipóteses e aprendemos, como qualquer empresa que trabalha com análise, comportamento humano e tomada de decisão. Entretanto, existe uma diferença importante, toda conclusão que entregamos vem acompanhada do caminho que levou até ela. Nossos clientes podem auditar, validar, questionar e reproduzir aquilo que encontramos, porque, para nós, ética não é um atributo complementar, é o que norteia o nosso trabalho. Não existe meio certo, não existe quase correto, não existe um pequeno desvio aceitável. Ou é ou não é.
Ao longo dos anos, comecei a perceber que essa forma de trabalhar produz um efeito curioso, ela atrai pessoas parecidas; e não estou falando de pessoas iguais, estou falando de pessoas que compartilham determinados valores e que se importam com a verdade dos fatos. Profissionais que não manipulam números para confirmar hipóteses, que não escondem informações inconvenientes, que não têm medo de admitir um erro, que entendem que credibilidade demora anos para ser construída e poucos minutos para ser destruída. É interessante observar como as equipes se formam.
Muitas empresas acreditam que times de alta performance são resultado apenas de competências técnicas. Claro que conhecimento importa, mas conhecimento sozinho não explica tudo. Ao longo da minha trajetória, aprendi que pessoas tendem a se aproximar de quem compartilha suas crenças mais profundas. A psicologia social chama isso de atração por similaridade. Tendemos a confiar mais, colaborar mais e construir vínculos mais fortes com pessoas que enxergam o mundo de forma parecida. Talvez seja por isso que, na Blue, encontramos algo que considero raro.
As pessoas vibram genuinamente com as conquistas umas das outras, compartilham conhecimento sem receio. Ajudam sem esperar reconhecimento, defendem os objetivos dos clientes como se fossem seus. Celebram resultados coletivos mais do que vitórias individuais, não porque alguém mandou, mas porque existe uma cultura construída sobre valores comuns.
Culturas fortes não são criadas por discursos, são criadas por repetição e pelas pequenas decisões tomadas todos os dias. São construídas pela forma como tratamos colegas, pela maneira como lidamos com erros, pela honestidade intelectual de reconhecer quando os dados mostram algo diferente do que gostaríamos de encontrar. Talvez seja por isso que não temos medo de compartilhar conhecimento.
Quem trabalha apenas para proteger informação vive preocupado com cópias e quem trabalha para gerar valor sabe que conhecimento compartilhado multiplica possibilidades.
O que construímos ao longo desses 8 anos nunca foi apenas uma empresa de tecnologia, analytics ou experiência do cliente, construímos uma comunidade de pessoas movidas por curiosidade, dedicação intelectual, generosidade e respeito pela verdade. Para mim, talvez essa seja uma das melhores constatações que já tive: resultados podem ser replicados, tecnologias podem ser compradas, processos podem ser copiados, mas confiança não. Não existe inteligência artificial capaz de substituir o caráter e não existem atalhos para a ética.
(*) Presidente do Conselho e sócia-fundadora da Blue6ix Tecnologia ([email protected]).
Por que ninguém mais sabe esperar o outro terminar de falar? – Jornal Empresas & Negócios
