Ana Luisa Winckler (*)
Vivemos cercados de estratégias para não encarar o óbvio: a vida é um misto de boletos atrasados, mensagens não respondidas, abraços que não chegam e manchetes que mais parecem roteiros de distopia barata.
O Brasil, esse grande reality show de improviso, nos treina desde cedo a sermos malabaristas: uma mão equilibra prazos, a outra a ansiedade, e os pés chutam as notícias do noticiário para debaixo do tapete. O truque não é resolver, é driblar. Como se a existência fosse um campeonato eterno de futsal: sobreviver ao juiz ladrão, ao atacante violento e ainda sorrir para a torcida.
Teoria de Boteco com Freud no Happy Hour
Psicologia básica explica: quando não conseguimos elaborar a dor, buscamos compensação. Alguns mergulham no consumo (da blusa em promoção ao curso de “reinvente-se em 7 dias”), outros na performance (metas, maratonas, medalhas de Linkedin). Há ainda os que fazem do humor um escudo, o famoso meme que nos salva mais do que o Rivotril. O vazio não desaparece: ele se disfarça de carrinho cheio no e-commerce, de risada em CAPS LOCK (caixa alta, o conhecido “KKKK”) ou de agenda abarrotada de reuniões inúteis.
O vazio não desaparece: só troca de roupa.
O que estamos realmente fugindo de ouvir
- O barulho do silêncio antes de dormir.
- O eco dos likes que não abraçam.
- A solidão da produtividade sem pertencimento.
- O déjà-vu de um país que repete novela velha achando que é estreia.
Remédios caseiros contra a existência?
Preenchemos esse vazio como podemos: com séries que não terminam nunca, com cerveja em lata, com espiritualidade fast-food, com a próxima entrega que parece prometer sentido. A vida se torna uma coleção de “atalhos para não sentir”.
Rir para não pedir asilo em Marte
No fim, talvez estejamos só tentando evitar a pergunta mais simples e mais perigosa:
“E se a vida for isso mesmo, boletos, filas, abraços atrasados e uns goles de esperança mal distribuídos?”
No fundo, sabemos: ninguém está plenamente ocupado demais, apenas desesperado para não sentir o buraco. Talvez a verdadeira pergunta não seja “o que estamos tentando evitar?”, mas “quanto tempo ainda vamos gastar evitando o que dói, quando poderíamos aprender a atravessar?”.
A boa notícia é que, enquanto não achamos resposta, o meme chega primeiro. E rir continua sendo o nosso antidepressivo genérico, sem bula, sem contraindicação e disponível 24 horas na prateleira do WhatsApp.
Então, seguimos entre boletos e piadas. Um país que canta sofrência no churrasco de domingo, mas ainda tem fé de que segunda-feira a vida começa de novo. Porque se não fosse pela nossa capacidade de rir no meio do caos, já teríamos pedido asilo em Marte.
(*) Psicóloga, escritora e rebelde afetuosa do mundo corporativo — onde transforma silêncio em escuta e vulnerabilidade em potência. Com 25 anos de RH na bagagem, ela cria espaços onde até a meta sorri e o KPI pede um café.
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