As frases que repetimos moldam os comportamentos que aceitamos

em A Mente do Cliente
terça-feira, 30 de junho de 2026

Neiva Dourado Martins Mendes (*)

Ultimamente, tenho me lembrado muito do meu pai. Há mais de 40 anos não o via quando ele morreu. Não sei como estava fisicamente nos últimos anos de vida, mas continuo lembrando do imenso repertório de ditados que ouvi durante toda a infância. Minha mãe também tem um repertório inesgotável. E, como acontece em tantas famílias brasileiras, muitas dessas frases eram repetidas tantas vezes que acabavam adquirindo o status de verdades.

Algumas eram inofensivas, outras carregavam muita sabedoria. Mas, olhando para elas hoje, com os olhos de quem estudou comportamento humano, liderou equipes, fundou uma empresa e continua curiosa, comecei a me fazer uma pergunta: quantas das crenças que carregamos pela vida nasceram de frases que nunca questionamos? A linguagem ocupa um lugar muito mais poderoso na construção do comportamento. Palavras não servem apenas para descrever o mundo, elas ajudam a definir como o enxergamos.

Vejo alguns exemplos da minha infância:

“Filho de peixe, peixinho é.” ou “A maçã não cai longe da macieira.”

As frases parecem inofensivas, mas carregam uma ideia profunda de determinismo. Como se estivéssemos condenados a repetir a história de quem veio antes de nós, como se a herança definisse o destino. Mas basta olhar ao redor para perceber que isso não é verdade. Filhos escolhem caminhos completamente diferentes, rompem ciclos familiares, criam novas histórias e transformam realidades.

Um outro exemplo. “A corda sempre arrebenta do lado mais fraco.” Talvez tenha surgido como observação social, mas também pode produzir algo perigoso: resignação. Como se injustiças fossem inevitáveis, como se os mais poderosos sempre escapassem e não valesse a pena lutar porque o resultado já estivesse definido. Eu discordo dessa expressão. Nunca parei de lutar porque amo a justiça e acredito que ela se aplica a todos!

Penso que talvez um dos mais discretos e perigosos seja o “cada macaco no seu galho.” À primeira vista, parece apenas um conselho sobre limites e respeito ao espaço do outro, mas também pode carregar uma mensagem de conformismo. Não se envolva, não questione, não interfira, não participe. Quantas situações de injustiça, violência ou discriminação permaneceram intocadas porque alguém acreditou que não deveria “meter a colher”?

É curioso observar como algumas dessas expressões atravessam gerações sem muito questionamento sobre o que realmente estão ensinando. A neurociência mostra que nosso cérebro adora atalhos porque eles economizam energia e simplificam decisões. Por isso, crenças repetidas tendem a se transformar em modelos mentais automáticos.

O problema é que nem todo atalho nos leva ao melhor destino, alguns nos ajudam a compreender o mundo, outros apenas limitam nossa capacidade de questioná-lo. Talvez por isso eu sempre tenha sido uma “criança perguntadora”. Ou, pelo menos, é assim que imagino que meus pais me viam. Eu perguntava demais, questionava demais, desconfiava de respostas prontas e rápidas. Talvez tenha sido exatamente essa característica que me acompanhou pela vida e me ajudou a não aceitar explicações superficiais.

Existe algo que aprendi observando comportamento humano durante décadas: sabemos que as circunstâncias moldam possibilidades e que nem todos têm as mesmas oportunidades, mas a nossa leitura sobre a realidade molda as nossas respostas diante dos desafios. Às vezes, não é o contexto em si que nos limita, mas a história que aprendemos a contar sobre nós mesmos diante dele.

Na Blue6ix analisamos milhões de interações entre consumidores e empresas. E uma das descobertas mais fascinantes é perceber que palavras nunca são apenas palavras. Quando alguém diz “não adianta reclamar”, “ninguém resolve” ou “sempre foi assim”, não está apenas descrevendo uma situação, está revelando uma crença, uma expectativa.

É justamente por isso que prestamos tanta atenção à linguagem, porque palavras são pistas. É onde entramos, matando a charada, direcionando o caminho, otimizando processos, resolvendo conflitos. Elas revelam medos, desejos, frustrações, esperanças e visões de mundo que muitas vezes nem o próprio interlocutor percebe que está carregando. Crenças não passam de geração em geração apenas por livros, escolas ou discursos. Muitas vezes elas sobrevivem escondidas em frases aparentemente inocentes que repetimos sem pensar. Por isso, talvez uma das formas mais poderosas de liberdade seja esta: Ter coragem de questionar as frases que sempre ouvimos, especialmente aquelas que nunca paramos para analisar.

(*) Presidente do Conselho e sócia-fundadora da Blue6ix Tecnologia ([email protected]).

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