Neiva Dourado Mendes (*)
Existe um tipo de decisão que parece inteligente, moderna e não pode ser adiada. Ela vem embalada em eficiência, tecnologia, redução de custos, e quase sempre, começa da mesma forma: alguém olha para uma função e pergunta o que exatamente essa pessoa faz.
A vantagem de estar ativa no mercado de trabalho há 48 anos me dá conforto e, como diz uma das palavras da moda, repertório para escrever este artigo. Ao longo dos anos, já vi muitos movimentos de redução de custos e tenho certeza de que alguns nomes ou siglas vão soar familiares:
1970–1980 -> Eficiência operacional e choque de custos: Lean Manufacturing, Just-in-Time
1980–1990 -> Reestruturação e corte de estruturas: Downsizing, Reengineering
1990–2000 -> Globalização e cadeia de valor: Offshoring, Benchmarking
2000–2010 -> Digitalização e automação: ERP, BPM
2010–2020 -> Digital, cloud e modelos enxutos: Cloud Computing, RPA
2020+ -> Inteligência artificial e eficiência extrema
Estamos agora no sexto movimento dessa cadeia. Então, volto ao livro de Rory Sutherland, Alquimia, publicado no Brasil em 2024. Quando tentamos explicar o valor de alguém apenas pelo que é visível, estamos simplificando demais a realidade. Vocês conhecem a falácia do porteiro? Ela não se aplica apenas à redução de custos, como vimos ao longo de quase seis décadas. Ela se aplica diretamente aos negócios. Se um porteiro abre portas, uma porta automática resolve. Se alguém responde e-mails, um modelo de IA resolve. Se um time analisa dados, um dashboard resolve.
Tudo parece lógico e eficiente, mas esconde um grande risco. Porque o valor verdadeiro nunca esteve apenas naquilo que é visível. Ele está no que não aparece, na interpretação e na decisão tomada antes do problema. Está na leitura de contexto. É nesse ponto que o erro deixa de ser apenas operacional e invade o campo comercial de forma despretensiosa, mas perigosa.
Empresas sérias, que trabalham com tecnologia, dados e IA, sabem o trabalho que dá fazer o que fazemos. Sabem o nível de especialização envolvido. Sabem o quanto existe de construção invisível por trás de algo que, na superfície, parece simples. Ainda assim, recebemos propostas indecorosas. Propostas que querem fazer caber uma expectativa enorme dentro de um orçamento diminuto. Como se tudo pudesse ser reduzido a código. Como se bastasse gerar um prompt. Como se a inteligência e a experiência humana pudessem ser comprimidas e precificadas ao custo de um token. Não são e não serão.
Essa distorção é a mesma da falácia descrita por Sutherland. Só que agora aplicada à percepção de valor.Quando alguém acredita que tecnologia resolve tudo sozinha, está olhando apenas para a camada visível do trabalho. Está ignorando que, por trás de qualquer solução relevante, existe uma rede de competências.
Existe arquitetura, curadoria, modelagem, interpretação, experiência acumulada… Existe gente. Gente que sabe fazer a pergunta certa antes de escrever o prompt. Gente que entende o contexto antes de confiar na resposta. Cortar pessoas com base apenas no que é visível é o mesmo erro de acreditar que o valor de um projeto tecnológico está apenas no entregável final. Dentro das empresas, isso leva à substituição precipitada de funções consideradas automatizáveis. No mercado, isso leva à desvalorização de soluções complexas, tratadas como commodities, e tudo isso acontece sob o discurso da evolução.
A tecnologia não é o problema, assim como a IA e a automação também não são. O problema é usar tudo isso com uma visão superficial do que realmente gera valor. Quando você reduz o trabalho humano ao que é visível, você não está apenas simplificando. Você está distorcendo. E quando essa distorção orienta decisões estratégicas e comerciais, o risco não é só técnico, ele passa a ser estrutural. Empresas não perdem relevância porque adotaram IA. Elas perdem porque deixaram de entender o que torna a IA útil: gente capaz de dar sentido ao código.
Enquanto essa diferença não for compreendida, continuaremos vendo decisões que parecem eficientes no curto prazo, mas que lentamente corroem aquilo que sustenta o negócio de verdade. Por isso, Rory Sutherland alerta: “nem tudo que importa pode ser medido, e nem tudo que pode ser medido importa”.
(*) Atual presidente do Conselho e sócia-fundadora da Blue6ix Tecnologia ([email protected]).
