Neiva Dourado Martins Mendes (*)
Existe uma pergunta que sempre me incomodou: por que a sociedade aceita mais facilmente o amor que sentimos pelos animais, mas ainda demonstra enorme dificuldade em compreender o luto quando eles partem? Estranho, não?
A maioria não estranha quando chamamos um cachorro de filho, ou se surpreende ao ver uma casa organizada em torno deles, uma viagem planejada pensando neles ou uma rotina adaptada às suas necessidades. Mas basta um deles morrer para surgir uma frase que machuca tanto quanto a perda: “Era só um cachorro.” Só?
Sempre amei os animais. Quando criança, havia um cachorro chamado Javali que, oficialmente, era do meu avô, Pompílio. Na realidade, era de toda a família. Lembro quando meus avós se mudaram para Salvador, a família inteira foi de ônibus e o Javali foi de avião. Isso aconteceu há 51 anos, muito antes de existirem discussões como a que levou à Lei Joca, criada para tornar o transporte aéreo de animais mais seguro. Infelizmente, ao desembarcar, o Javali fugiu.
Lembro do meu tio percorrendo as ruas de Salvador procurando aquele amigo, mas nunca mais o encontrou. Curiosamente, essa lembrança permanece muito viva dentro de mim por décadas e a neurociência explica por quê. Experiências carregadas de emoção são registradas de forma mais intensa pelo cérebro. Não guardamos apenas fatos, guardamos também os afetos. Possivelmente, é por isso que ainda consigo sentir a tristeza daquela perda.
Anos depois, formei minha família e meu filho trouxe o Scotch, depois veio o Avalon. Aos domingos, ao visitá-lo, ele brincava comigo: “Mãe, você veio me ver ou veio ver os cachorros?” Os cachorros, na maioria das vezes, eu passava mais tempo com eles. Foi essa convivência que despertou em mim o desejo de adotar. Em 2011, chegou a Biju. Depois vieram Linda, Fedor, Belinha, Costelinha, Igor, Banda, Farofa, Pipoca, Léia, Isa, Nina, Duque e, com o filho, mais recentemente, Dodô.
Quase todos chegaram adultos, quase todos haviam sido abandonados. Não fomos nós que salvamos esses cães. Tenho a impressão de que foram eles que salvaram partes importantes de nós. Ao longo dos anos, perdemos nove deles, a primeira foi a Biju.
Era meu primeiro dia de férias em dezembro de 2017, passei praticamente uma semana sem conseguir sair da cama. Não tinha vontade de fazer nada, só chorava. Tive a sorte de estar cercada por amigos que fizeram algo muito importante, eles não minimizaram minha dor, eles a legitimaram.
A psicologia tem um nome para isso: luto não reconhecido. É aquele sofrimento que existe, mas que parte da sociedade insiste em considerar menor, exagerado ou inadequado. Como se o tamanho da dor pudesse ser medido pela espécie de quem partiu, mas o cérebro não faz essa distinção. Os vínculos afetivos construídos com um animal ativam os mesmos sistemas neurais envolvidos em relações humanas significativas.
Hormônios associados ao apego, como a ocitocina, participam dessa construção ao longo da convivência. Quando esse vínculo é rompido, o cérebro reage, porque existe ausência, saudade, reorganização emocional e luto. Talvez por isso uma das decisões mais difíceis da minha vida continue sendo a eutanásia. Ao longo dos anos, precisei tomá-la algumas vezes e nunca fica mais fácil.
Existe um instante em que entendemos que o maior gesto de amor deixa de ser prolongar a nossa companhia e passa a ser interromper o sofrimento deles. É uma decisão tomada por amor e, justamente por isso, dói tanto. Hoje não tenho nenhum constrangimento em dizer que prefiro a companhia dos meus cães a muitas relações humanas. Os animais não conhecem inveja, não fazem fofoca, não humilham, não julgam aparência, não guardam ressentimentos.
Eles nos recebem todos os dias com a mesma alegria, independentemente do cargo, da conta bancária ou do sucesso que tivemos naquela semana. Talvez seja exatamente essa simplicidade que torne a despedida tão devastadora. Ainda precisamos aprender, como sociedade, que amor não depende da espécie, amor depende do vínculo! E vínculo, quando é verdadeiro, sempre deixa um vazio quando termina.
Por isso, da próxima vez que alguém disser que perdeu um cachorro, um gato ou qualquer outro bichinho que fez parte da sua vida, talvez a melhor resposta não seja tentar diminuir a dor. Basta olhar com carinho, um pouco de empatia, de fazer aquilo que meus amigos fizeram por mim, reconhecer que aquele amor existiu, porque, quando o amor é verdadeiro, o luto também é.
(*) Presidente do Conselho e sócia-fundadora da Blue6ix Tecnologia ([email protected]).
