Ana Luisa Winckler (*)
Confesso uma coisa.
Mais de uma vez entrei na Shopee, na Shein, e em tantos outros aplicativos. Enchi o carrinho. Fechei a tela. Voltei dois dias depois. Tirei algumas coisas. Acrescentei outras.
Era quase um acordo silencioso entre mim e meu impulso.
“Calma. Se daqui a dois dias você ainda quiser isso, a gente conversa.”
Sempre achei que aquilo fosse apenas um hábito meu. Uma pequena estratégia para não comprar por impulso.
Até descobrir que existem aplicativos em que o carrinho virou o próprio produto.
As pessoas entram para simular compras. Escolhem produtos, montam pedidos, fecham a tela e vão embora. Nada será entregue. A experiência termina exatamente onde, para mim, ela começava: no exercício de conter o desejo.
Foi aí que pensei: espera… isso não é só curioso. É uma mudança cultural.
Na psicologia, chamamos de autorregulação a capacidade de criar uma pequena distância entre o desejo e a ação. É esse intervalo que nos permite escolher, e não apenas reagir.
O curioso é que esse intervalo parece estar sendo capturado pelo mercado.
O algoritmo escolhe o próximo vídeo. O streaming decide o que provavelmente vamos gostar. A inteligência artificial conversa quando estamos sozinhos. Os medicamentos regulam o apetite. Os aplicativos organizam nossa atenção.
E agora até o impulso de comprar pode ser transformado em entretenimento.
À primeira vista, esses mercados não têm nada em comum.
Mas talvez todos estejam negociando a mesma matéria-prima: o comportamento humano.
A neurociência mostra que a dopamina não é, como dizem por aí, o “hormônio do prazer”. Ela está muito mais ligada à motivação e à antecipação da recompensa. O cérebro aprende a desejar antes mesmo de consumir.
Talvez seja por isso que a expectativa tenha se tornado um negócio tão lucrativo.
Não compramos apenas um vestido. Compramos a possibilidade de sermos outra versão de nós mesmos. Não compramos apenas um prato bonito. Compramos uma história para publicar. Não compramos apenas um aplicativo. Compramos a promessa de uma mente mais organizada, um corpo melhor, uma vida mais interessante.
O mercado sempre vendeu produtos. Depois aprendeu a vender experiências.
Agora parece aprendera vender estados mentais.
Não acredito que o maior risco esteja na Shopee, na Temu, nos medicamentos ou na inteligência artificial.
Eles são apenas sintomas.
O que me inquieta é perceber a velocidade com que vamos entregando pequenas funções da nossa vida mental para o mercado.
Primeiro ele escolhe o que assistimos. Depois o que compramos. Depois o que comemos. Depois quanto devemos pesar. Depois com quem conversar quando estamos sozinhos.
E, sem perceber, vamos deixando de exercitar justamente aquilo que nos torna humanos: esperar, frustrar-nos, desejar, mudar de ideia, construir sentido.
Talvez o capitalismo tenha encontrado sua matéria-prima mais valiosa.
Não o nosso dinheiro. Nem a nossa atenção. Mas a nossa capacidade de desejar.
Se no século passado terceirizamos a produção, a logística e os serviços, talvez estejamos inaugurando uma nova etapa.
Uma em que começamos a terceirizar partes da nossa própria mente.
Eu arriscaria um nome para isso: A terceirização da vida psíquica.
(*) Psicóloga, escritora e rebelde afetuosa do mundo corporativo — onde transforma silêncio em escuta e vulnerabilidade em potência. Com 25 anos de RH na bagagem, é CEO da Prisma Consultoria, e cria espaços onde até a meta sorri e o KPI pede um café.
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