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O Natal que o LinkedIn não mostra

em A Outra Sala
terça-feira, 23 de dezembro de 2025

Ana Luisa Winckler (*)

Todo Natal corporativo começa igual: mensagens emocionadas, retrospectivas bem editadas e aquele agradecimento coletivo que parece dizer “sobrevivemos” – ainda que escrito como “vencemos”.

É a época em que o LinkedIn vira uma grande ceia simbólica.
Todo mundo posta o prato bonito.
Ninguém mostra a cozinha.

E olha que teve de tudo este ano.
Momentos inspiradores, sim.
Mas também decisões difíceis, silêncios estratégicos, polêmicas mal digeridas, conversas que ficaram “para depois do recesso”, esse lugar mítico onde a responsabilidade costuma tirar férias.

Nada disso aparece nas fotos da confraternização.

Existe um Natal que não ganha legenda: o de quem bateu meta adoecido, o de quem confundiu maturidade com engolir seco, o de quem ouviu “é só essa fase” por meses seguidos, até o corpo começar a discordar.

Mas agora esse Natal invisível ganhou companhia na mesa: a NR-1.

Sim, aquela norma nada instagramável que veio lembrar o óbvio: saúde mental, riscos psicossociais, sobrecarga e assédio não são assuntos subjetivos demais para o mundo dos negócios. São parte do trabalho. E da responsabilidade.

Se o Papai Noel tivesse atualizado o compliance, talvez não perguntasse quem foi bonzinho, mas quem normalizou o excesso, quem chamou esgotamento de resiliência e quem terceirizou cuidado enquanto celebrava resultado.

E aqui vai uma verdade incômoda: não é que as empresas não saibam o que fazer.
Algumas sabem. E fazem.

Existem lideranças que entenderam que o verdadeiro presente de fim de ano não vem embrulhado.
Ele aparece quando:
– a urgência é revista;
– a carga diminui, em vez de aumentar “porque é dezembro”;
– reuniões desnecessárias são canceladas sem culpa;
– férias são respeitadas sem mensagens disfarçadas de carinho;
– reconhecimento não vem junto com romantização do sacrifício.

Essas práticas existem.
E deveriam ser replicadas com a mesma empolgação que cases de sucesso.

O problema é que ainda confundimos clima organizacional com decoração.
Achamos que luz pisca-pisca resolve o que faltou o ano inteiro:
escuta real, limite, coerência, coragem.

Não resolve.

Natal não é sobre parecer grato.
É sobre ter sido justo.

E talvez o maior equívoco das empresas seja tratar o Natal como fechamento, quando ele é, na verdade, espelho.

Espelho das escolhas feitas quando ninguém estava olhando.
Das decisões tomadas em nome do resultado.
De quem foi visto como pessoa, e de quem foi apenas funcional.

Porque, no fim das contas, não é sobre celebrar números.
É sobre perceber quem chegou até aqui inteiro, e quem só chegou.

O resto é filtro.
E o Natal, esse velho inconveniente, sempre acaba revelando.

Que este Natal nos lembre que presença vale mais do que presente.
Que cuidado pesa mais do que discurso, e escuta sustenta mais do que qualquer retrospectiva bem editada.

Um Natal com menos performance e mais humanidade.
Menos embalagem e mais verdade. Um Natal para estar, não para parecer.

(*) Psicóloga, escritora e rebelde afetuosa do mundo corporativo — onde transforma silêncio em escuta e vulnerabilidade em potência. Com 25 anos de RH na bagagem, é CEO da Prisma Consultoria, e cria espaços onde até a meta sorri e o KPI pede um café.