
Ana Luisa Winckler (*)
Durante décadas, discursos de formatura eram quase um ritual de passagem.
Você estudava.
Se esforçava.
Sobrevivia ao TCC, ao café requentado e ao colega que “só entrou no grupo pra aprender”.
E então vinha o grande final: um palco, uma beca, um magnata sorrindo, e a promessa de um futuro cheio de possibilidades.
Agora, em algumas universidades americanas, executivos estão sendo vaiados quando começam a falar sobre IA.
E talvez isso diga menos sobre tecnologia… e mais sobre exaustão psicológica coletiva.
Porque existe algo muito curioso acontecendo com essa geração: ela nasceu ouvindo que precisava se preparar para o futuro… mas entrou na vida adulta sendo informada de que o futuro talvez não queira mais ela.
Existe um detalhe antropológico importante aqui.
Sociedades sempre usaram narrativas de futuro para organizar comportamento coletivo.
Religiões fizeram isso.
Impérios fizeram isso.
Mercados fazem isso.
Quem controla a narrativa do amanhã frequentemente influencia as decisões do presente.
E talvez estejamos vivendo uma versão corporativa disso: um futurismo baseado em insegurança contínua.
Não é: “vamos construir possibilidades.”
É: “adapte-se rápido ou desapareça.”
Percebe a diferença?
Quando o futuro é apresentado como ameaça permanente:
- ansiedade vira estado basal;
- hiperadaptação vira virtude;
- exaustão ganha apelido de alta performance;
- e medo começa a ser confundido com preparação estratégica.
Psicologicamente, isso produz um efeito perverso em jovens profissionais: a autoconfiança deixa de nascer da experiência… e passa a depender da validação constante do sistema.
Porque se tudo pode acabar a qualquer momento, você nunca sente que sabe o suficiente, que é bom o suficiente, que está atualizado o suficiente.
Você vira um profissional eternamente “em débito” com o amanhã.
E pessoas em débito psicológico são mais fáceis de conduzir.
A antropologia do poder já discutia algo parecido há muito tempo: grupos inseguros tendem a buscar estruturas externas de proteção, autoridade e pertencimento.
Traduzindo para o corporativês contemporâneo: quanto mais assustado você está sobre o futuro, mais você aceita qualquer promessa de relevância.
Mesmo que ela custe sua saúde mental.
Talvez por isso exista algo tão simbólico nas vaias dessas formaturas.
Elas parecem dizer: “não vendam pânico como se fosse inspiração.”
Porque uma coisa é falar sobre transformação tecnológica.
Outra é criar uma atmosfera emocional onde jovens de 22 anos sentem que já estão obsoletos antes do primeiro crachá.
E aqui mora uma ironia quase cinematográfica: o mesmo mercado que fala obsessivamente sobre inovação, criatividade e pensamento crítico… muitas vezes produz pessoas psicologicamente cansadas demais para criar qualquer coisa realmente nova.
Afinal, cérebros em estado de ameaça contínua tendem a sobreviver.
Não a imaginar.
Talvez essa geração esteja começando a perceber algo profundamente desconfortável: o medo excessivo do futuro pode se tornar uma tecnologia de controle social extremamente eficiente.
Porque quando você acredita que o mundo muda rápido demais para confiar em si mesmo, você terceiriza direção.
Para empresas.
Para algoritmos.
Para gurus.
Para tendências.
Para qualquer estrutura que pareça dizer: “fica tranquilo, nós sabemos o caminho.”
E talvez a pergunta mais importante não seja: “a IA vai substituir empregos?”
Talvez seja: “o que acontece com uma geração inteira que aprende desde cedo a duvidar da própria capacidade de construir futuro?”.

Imagem desenvolvida com apoio de Inteligência Artificial generativa, direção criativa autoral e composição conceitual voltada à crítica de comportamento, cultura digital e comunicação contemporânea.
(*) Psicóloga, escritora e rebelde afetuosa do mundo corporativo — onde transforma silêncio em escuta e vulnerabilidade em potência. Com 25 anos de RH na bagagem, é CEO da Prisma Consultoria, e cria espaços onde até a meta sorri e o KPI pede um café.
