Pandemia e saúde mental: momento pede adaptação de empresas e cuidado com os colaboradores

Guilherme Junqueira (*)

Falar sobre os efeitos negativos do COVID-19, que preocupam o mundo, é falar o que lemos e ouvimos 99% do nosso tempo há semanas aqui no Brasil. Sem dúvida, um dos primeiros impactos da pandemia para as empresas e, consequentemente, para os seus colaboradores, foi o isolamento. Com isso, vieram as adaptações para o trabalho remoto (home office).

Esse é um ponto que também não preciso entrar em detalhes, afinal, aprendemos muito sobre nas últimas semanas. Meu ponto aqui é, finalmente temos um tempo extra para aproveitar para aprender algo novo ou, simplesmente, não fazer nada. Afinal, não temos que nos deslocar até o trabalho e ficar horas no trânsito como é o caso de algumas cidades. E o que fazer com isso?

Estamos vivendo uma crise de FOMO (Fear of Missing Out), que significa medo de perder oportunidades, de ficar de fora de algo. Trata-se de uma condição mais contemporânea bastante característica da lógica de consumo que nos traz a ideia de que ser feliz, validar a existência, consumir ou ser igual ao padrão, é uma ordem. É a cultura do excesso que nos faz crer que consumindo, produzindo, e desta forma, sendo “felizes” é que a nossa existência é validada. Estamos sofrendo de ansiedade causada pelo custo de oportunidade.

Estamos nos questionando sobre nossas vidas em relação à vida das outras pessoas. As escolhas dos outros, cada vez mais estampadas nas redes sociais, servem como espelho. E, neste momento, estamos vivendo algo que remonta tudo isso: “Faça yoga!”, “Faça exercícios em casa!”, “Medite!”, “Estude um idioma novo!”, gerando a lógica de que a vida confinada precisa ser aproveitada o máximo possível e que existe uma fórmula mágica para o sucesso tanto em nível pessoal como profissional em tempos de quarentena.

O que devemos fazer é entender as demandas individuais e validá-las independente de seu grau de “produtividade”. Para além das lives e conteúdos sobre produtividade, se você é líder, principalmente, é preciso ouvir os colaboradores, acolhê-los neste momento de incertezas e ser transparente.

As empresas precisam criar um plano de contingência e definir estratégias de comunicação, bem como treinar e orientar os líderes, melhorar a conexão entre coordenadores e coordenados. Mas é preciso traçar um plano também para as pessoas. Algumas dicas:

1 – A comunicação e a transparência devem ser os novos pilares do trabalho em equipe, para executar o plano de contingência com menos impedimentos e medos;

2 – Em seguida, cuidar da infraestrutura para trabalhar é preciso. Não são todos do time que possuem uma internet super veloz e uma cadeira confortável para trabalhar;

3 – Crie novos rituais, abrindo espaços para as pessoas compartilhar como estão lidando com o isolamento, compartilhando suas rotinas e interesses pessoais;

4 – Dê suporte psicoterapêuticos para seus colaboradores. Existem diversas plataformas que possibilitam consultas virtuais à psicólogos e terapeutas;

5 – Crie canais e fomente atividades físicas em grupo, compartilhamento de dicas de filmes, séries, livros e cursos;

6 – Cuide da jornada de trabalho, pois é comum nesse momento de adaptação, os colaboradores se perderem no horário e trabalhar mais do que o de rotina;

7 – Faça pesquisa de pulso, ligando para seus colaboradores e perguntando se tudo que está acontecendo na empresa está claro, se essa pessoa está bem e se colocando à disposição para ouvir e ajudar no que for preciso;

8 – Cuidado redobrado para pessoas que moram sozinhas e estão longe dos familiares, pois tendem a sentir mais desconforto e ansiedade nesse momento de isolamento;

9 – Inclua como lidar com os desafios familiares. Filhos fazendo homeschooling, cônjuge estressados, pais inquietos, e todos se sentindo impotentes contra a pandemia;

10 – Aceite e desconsidere momentos de estresse dos colaboradores, todos estamos sob pressão;

11 – Treine seu time de liderança para fazer boas reuniões individuais (1-1), sabendo lidar com a dificuldade de leitura corporal que as reuniões virtuais trazem;

12 – Preservar empregos tem que ser a prioridade. As pessoas estão com medo de serem impactadas por essa crise, portanto se sua empresa vai conseguir passar por essa crise sem demitir, deixe isso claro e traga segurança para seu time. Caso contrário, tente fazer os desligamentos da maneira mais humana possível, com ligações individuais, apoio na recolocação, investindo em cursos de capacitação e extensão do plano de saúde (se houver) como benefício.

Segundo pesquisa da Deloitte, o equilíbrio emocional é o principal desafio da população chinesa atualmente, após a crise do coronavírus se instalar no país. Nunca vi nada parecido, por isso, a necessidade de adaptação ao cenário é inevitável para profissionais e empresários. Entender a importância dos seus colaboradores e também as prioridades da empresa é primordial.

Fortalecer a saúde mental do time precisa estar nas tarefas diárias dos líderes, afinal, um time que se sente seguro está mais apto a desempenhar um bom papel no plano de contingência e um bom desempenho possibilitará uma perspectiva positiva do futuro da empresa. E quando tudo isso voltar ao normal? Ou melhor, qual será o “novo normal”? No cenário pós-corona, empresas precisarão de um outro modelo mental.

A transformação digital de muitas empresas veio a força e provou para muitos líderes que dá sim para produzir e crescer trabalhando de forma remota. Então, será que os escritórios gigantes ainda serão necessários depois de tudo isso? Minha aposta é que o modelo de trabalho híbrido (misturando virtual e presencial) vai ganhar muita força, pois o presencial ainda será necessário para que a cultura seja fortalecida, as relações humanas intensificadas e as fronteiras geográficas não sejam mais um problema de crescimento.

Depois de tudo que estamos passando é preciso promover espaços para que isso seja debatido, conversado e não agir como se nada tivesse acontecido, pois as pessoas precisam falar para poder ressignificar o que passou. Inevitavelmente, as pessoas voltarão diferentes. Terão confrontado uma série de sentimentos, estarão com emoções afloradas, ressignificando uma série de questões, e tudo isso impacta no trabalho, então para que possamos “superar” isso de forma saudável, precisaremos dialogar a respeito de tudo.

E você, o que está fazendo na sua empresa para preservar a saúde mental do seu time?

(*) – É fundador e CEO da Gama Academy (https://gama.academy/).

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