Ana Luisa Winckler (*)
Entre a polilaminina e o body splash de vanilla
A semana trouxe duas notícias brasileiras que não brigam entre si — mas revelam a mesma coisa sobre nós.
De um lado, a pesquisadora Tatiana Coelho de Sampaio, da UFRJ, estudando uma molécula chamada polilaminina para tratamento de lesão medular. Traduzindo: gente que perdeu o movimento pode voltar a andar.
Do outro, a internet discutindo audiência, seguidores, publi, reality, look do carnaval e qual influencer é “a mulher mais relevante do país”.
As duas coisas viralizaram.
Mas só uma delas muda literalmente a relação entre um corpo humano e o chão.
E o ponto não é criticar influencer. Nem santificar cientista.
O ponto é outro: o que a nossa cabeça entende como relevante?
Antes da internet
Antes do celular, existia uma portaria cultural.
Você só virava figura pública se passasse por algum filtro: jornal, TV, rádio, editora. Era injusto? Muitas vezes. Excludente? Bastante.
Mas tinha um efeito psicológico importante: alguém ainda organizava o que era notícia e o que era apenas barulho.
O mundo não era mais inteligente, era mais editado.
Depois da internet
A gente comemorou: “agora todo mundo pode falar”.
Pode mesmo.
Só esquecemos que uma coisa é publicar. Outra é ser visto.
Hoje quem organiza o mundo não é mais o editor.
É o algoritmo.
E o algoritmo não mede importância. Mede permanência.
Ele não pergunta “isso melhora a vida?”.
Pergunta “isso prende atenção?”.
Ou seja: não venceu quem contribui mais.
Vence quem gera mais reação.
Não é maldade.
É matemática.
O que um ídolo realmente é
Ídolos não existem porque as pessoas são bobas.
Eles existem porque o cérebro precisa de referência. A mente humana o tempo todo faz uma pergunta silenciosa:
como se vive uma vida possível?
A gente olha para alguém para aprender sem perceber:
como envelhecer
como ter sucesso
como parecer feliz
como não ser excluído
O problema não é ter referência.
O problema é quando a referência deixa de orientar a realidade e passa só a ocupar a atenção.
Porque atenção não é neutra.
Atenção é treino cerebral.
Aquilo que você vê todos os dias vira, devagarinho, sua noção de mundo normal.
Então o que mudou?
Antes, poucas pessoas decidiam quem aparecia.
Hoje parece que ninguém decide.
Mas alguém decide: o sistema que transforma emoção rápida em alcance. O celular deu voz para todos, e ao mesmo tempo criou a maior competição psicológica da história.
Não escolhemos só quem admiramos.
Escolhemos quem nos regula.
Algumas figuras acalmam.
Outras estimulam.
Outras nos deixam permanentemente insatisfeitos sem sabermos por quê.
Por isso a discussão da semana não é sobre mulheres.
É sobre semântica.
“Relevante” virou sinônimo de “visível”.
E visível virou sinônimo de “importante”.
Não são a mesma coisa.
Talvez a pergunta não seja quem merece mais atenção.
Talvez seja:
o que nossa mente aprende a valorizar quando abre o celular antes mesmo de abrir a janela?
Porque, entre uma descoberta científica como a polilaminina e mais um story sobre o novo body splash de vanilla, existe menos uma disputa de pessoas, e mais uma escolha silenciosa de realidade.
(*) Psicóloga, escritora e rebelde afetuosa do mundo corporativo — onde transforma silêncio em escuta e vulnerabilidade em potência. Com 25 anos de RH na bagagem, é CEO da Prisma Consultoria, e cria espaços onde até a meta sorri e o KPI pede um café.

