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Os nossos ídolos ainda são os mesmos

em A Outra Sala
terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Ana Luisa Winckler (*)

Entre a polilaminina e o body splash de vanilla

A semana trouxe duas notícias brasileiras que não brigam entre si — mas revelam a mesma coisa sobre nós.

De um lado, a pesquisadora Tatiana Coelho de Sampaio, da UFRJ, estudando uma molécula chamada polilaminina para tratamento de lesão medular. Traduzindo: gente que perdeu o movimento pode voltar a andar.

Do outro, a internet discutindo audiência, seguidores, publi, reality, look do carnaval e qual influencer é “a mulher mais relevante do país”.

As duas coisas viralizaram.
Mas só uma delas muda literalmente a relação entre um corpo humano e o chão.

E o ponto não é criticar influencer. Nem santificar cientista.
O ponto é outro: o que a nossa cabeça entende como relevante?

Antes da internet

Antes do celular, existia uma portaria cultural.

Você só virava figura pública se passasse por algum filtro: jornal, TV, rádio, editora. Era injusto? Muitas vezes. Excludente? Bastante.

Mas tinha um efeito psicológico importante: alguém ainda organizava o que era notícia e o que era apenas barulho.

O mundo não era mais inteligente, era mais editado.

Depois da internet

A gente comemorou: “agora todo mundo pode falar”.

Pode mesmo.

Só esquecemos que uma coisa é publicar. Outra é ser visto.

Hoje quem organiza o mundo não é mais o editor.
É o algoritmo.

E o algoritmo não mede importância. Mede permanência.
Ele não pergunta “isso melhora a vida?”.
Pergunta “isso prende atenção?”.

Ou seja: não venceu quem contribui mais.
Vence quem gera mais reação.

Não é maldade.
É matemática.

O que um ídolo realmente é

Ídolos não existem porque as pessoas são bobas.

Eles existem porque o cérebro precisa de referência. A mente humana o tempo todo faz uma pergunta silenciosa:

como se vive uma vida possível?

A gente olha para alguém para aprender sem perceber:
como envelhecer
como ter sucesso
como parecer feliz
como não ser excluído

O problema não é ter referência.

O problema é quando a referência deixa de orientar a realidade e passa só a ocupar a atenção.

Porque atenção não é neutra.
Atenção é treino cerebral.

Aquilo que você vê todos os dias vira, devagarinho, sua noção de mundo normal.

Então o que mudou?

Antes, poucas pessoas decidiam quem aparecia.

Hoje parece que ninguém decide.

Mas alguém decide: o sistema que transforma emoção rápida em alcance. O celular deu voz para todos, e ao mesmo tempo criou a maior competição psicológica da história.

Não escolhemos só quem admiramos.
Escolhemos quem nos regula.

Algumas figuras acalmam.
Outras estimulam.
Outras nos deixam permanentemente insatisfeitos sem sabermos por quê.

Por isso a discussão da semana não é sobre mulheres.
É sobre semântica.

“Relevante” virou sinônimo de “visível”.
E visível virou sinônimo de “importante”.

Não são a mesma coisa.

Talvez a pergunta não seja quem merece mais atenção.

Talvez seja:
o que nossa mente aprende a valorizar quando abre o celular antes mesmo de abrir a janela?

Porque, entre uma descoberta científica como a polilaminina e mais um story sobre o novo body splash de vanilla, existe menos uma disputa de pessoas, e mais uma escolha silenciosa de realidade.

(*) Psicóloga, escritora e rebelde afetuosa do mundo corporativo — onde transforma silêncio em escuta e vulnerabilidade em potência. Com 25 anos de RH na bagagem, é CEO da Prisma Consultoria, e cria espaços onde até a meta sorri e o KPI pede um café.