Ana Luisa Winckler (*)
Tem uma coisa estranha acontecendo.
As pessoas estão brigando no trânsito como quem defende o último gole de água do planeta.
Discussão de condomínio virou UFC emocional.
Fila de mercado parece experimento social de privação de sono.
E bastam cinco minutos em qualquer rede social para perceber que tem gente digitando como se estivesse possuída por um coach motivacional e um demônio da Renascença ao mesmo tempo.
A pergunta não é mais: “Por que as pessoas estão tão estressadas?”
A pergunta agora é: por que estamos fingindo surpresa?
Porque talvez o problema não seja exatamente a agressividade.
Talvez seja a combinação explosiva entre:
- Exaustão
- Hiperestimulação
- Solidão emocional
- Medo econômico
- Dopamina infinita
- e adultos que nunca aprenderam a regular frustração sem transformar tudo em guerra.
A neurociência já mostra há anos que cérebros em estado constante de ameaça reduzem capacidade de empatia, escuta, interpretação racional e controle inibitório.
Traduzindo para o português do cotidiano: o cérebro cansado vira um péssimo diretor de recursos humanos da própria vida.
E nós criamos uma sociedade inteira baseada em excesso.
Excesso de estímulo.
Excesso de cobrança.
Excesso de opinião.
Excesso de comparação.
Excesso de alerta.
É gente acordando cansada e dormindo culpada.
No meio disso tudo, fomos nos tornando perigosamente reativos.
Não é coincidência que figuras públicas estejam cada vez mais agressivas.
Nem que ambientes corporativos estejam mais hostis.
Nem que líderes estejam respondendo pressão com brutalidade elegante em PowerPoint colorido.
Tem executivo chamando desregulação emocional de “perfil acelerado”.
Tem empresa chamando burnout de “momento desafiador”.
Tem adulto emocionalmente analfabeto ocupando cargo estratégico e decidindo o clima psicológico de equipes inteiras.
E talvez essa seja uma das partes mais preocupantes: normalizamos níveis absurdos de irritação.
A pessoa explode por uma vaga.
Humilha alguém numa reunião.
Desconta no garçom.
Ataca desconhecidos online.
E depois diz: “Desculpa, eu tô estressado.”
Como se estresse fosse um passe VIP para a desumanização.
Não é.
Cansaço explica comportamento.
Não absolve.
E existe outra camada mais silenciosa nisso tudo: a romantização da hiperfuncionalidade.
Tem gente funcionando tão no limite que começou a achar normal:
- esquecer o que sente
- responder atravessado
- viver em estado de urgência
- sentir raiva constante
- perder prazer nas coisas simples
- achar que descanso é prêmio por sobrevivência
O problema é que corpos cansados não fazem só pessoas cansadas.
Fazem sociedades impulsivas.
E sociedades impulsivas começam a perder algo muito perigoso: a capacidade de simbolizar.
Tudo vira ataque.
Tudo vira ameaça.
Tudo vira “eu contra você”.
É como se o mundo inteiro estivesse tentando resolver dor emocional no modo comentário de internet.
Talvez por isso tanta gente esteja vivendo como uma panela de pressão com diploma, CPF e crachá.
Funciona.
Produz.
Entrega.
Mas basta um arranhão no ego e o retrovisor voa.
A verdade inconveniente é que saúde mental nunca foi apenas sobre bem-estar individual.
Ela sempre foi uma questão social.
Organizacional.
Cultural.
Política.
Porque pessoas emocionalmente esgotadas não constroem relações saudáveis.
Constroem campos minados com Wi-Fi.
E talvez esteja na hora de admitir: não estamos vendo apenas uma crise de estresse.
Estamos vendo uma crise coletiva de regulação humana.
(*) Psicóloga, escritora e rebelde afetuosa do mundo corporativo — onde transforma silêncio em escuta e vulnerabilidade em potência. Com 25 anos de RH na bagagem, é CEO da Prisma Consultoria, e cria espaços onde até a meta sorri e o KPI pede um café.

