Ana Luisa Winckler (*)
Talvez a gente tenha entendido tudo meio literal demais.
Enquanto isso, a vida foi acontecendo em outra dimensão:
menos metafísica… e mais agenda.
Recentemente recebi um reels no Instagram sobre as representações do inferno ao longo da história.
E fiquei com uma sensação curiosa.
Não de medo.
De reconhecimento.
Porque, sendo honesta… o inferno contemporâneo não parece mais um lugar com fogo. Parece um ritmo que não desliga.
Acorda. Resolve. Entrega. Responde. Adapta. Aguenta.
Repete.
Com pequenas pausas estratégicas chamadas “final de semana” … aquele intervalo simbólico onde a gente tenta lembrar quem era fora da função.
E o mais sofisticado disso tudo?
A gente não chama de sofrimento.
Chama de responsabilidade.
De dar conta.
De vida adulta.
(Um branding impecável, diga-se de passagem.)
Só que o corpo… não fala essa língua corporativa.
Ele começa a cobrar o que não encontra espaço para existir.
E não é só pelo excesso de trabalho.
É pela ausência de tempo psíquico.
Tempo de se escutar, de elaborar, de sentir sem precisar performar produtividade até no próprio cansaço.
E aqui vem uma camada que costuma ficar fora da conversa, porque ela não cabe bem nos posts inspiracionais.
Para muitas pessoas, especialmente nas camadas mais vulneráveis economicamente,
essa discussão nem chega a existir.
Não porque não haja dor.
Mas porque não há margem.
Quando a vida está ocupada em garantir o básico, olhar para dentro não é prioridade, é privilégio.
Autoconhecimento, nesse contexto, não é jornada.
É acesso.
E talvez uma das desigualdades mais silenciosas do nosso tempo seja essa:
quem pode parar para se perguntar: “o que está acontecendo comigo?”
E quem precisa seguir…
sem nem poder nomear.
No fim, talvez o inferno moderno não seja exatamente sofrer.
É continuar funcionando perfeitamente…
sem tempo, linguagem ou permissão
para perceber que algo em você já está em chamas há muito tempo.
(*) Psicóloga, escritora e rebelde afetuosa do mundo corporativo — onde transforma silêncio em escuta e vulnerabilidade em potência. Com 25 anos de RH na bagagem, é CEO da Prisma Consultoria, e cria espaços onde até a meta sorri e o KPI pede um café.
