Neiva Dourado Mendes (*)
Será que serei cancelada se eu falar que, às vezes, estou cansada de gente?
As pessoas contornam muitos temas complexos por medo de perder likes. Medem a repercussão das suas ideias pela quantidade de “coraçõezinhos” que recebem em suas redes sociais. Eu gosto de trazer temas importantes, aqueles que muita gente sente, mas falar ainda parece ser um tabu. E aqui vai um deles: estar com pessoas também cansa!
Nem todo cansaço vem do trabalho. Às vezes, vem das interações. Já imaginaram nas centrais de relacionamento? E admitir isso ainda parece errado. Ontem, conversando com o Lucas, nosso querido coordenador técnico, ele comentou algo que fez muito sentido. Depois de um dia com 10 reuniões técnicas, mesmo recebendo a visita da própria mãe, ele precisa de alguns minutos em silêncio. Sem ouvir nada. Só para se reorganizar e, então, conseguir estar com ela de verdade. Isso não é frieza dele, é uma resposta natural do cérebro.
A neurociência mostra que interações sociais exigem muito do nosso sistema cognitivo e emocional. Cada conversa ativa atenção, memória, interpretação de sinais, controle emocional. É um processamento intenso. E, dependendo do perfil da pessoa, isso consome ainda mais energia. Além disso, existe um fator pouco falado: o cérebro está o tempo todo avaliando segurança. Interações sociais ativam áreas ligadas à vigilância, especialmente quando há cobrança, expectativa ou necessidade de performance.
Ou seja, não é só “estar com pessoas”. É processar todos esses sinais. Por outro lado, o silêncio, o seu espaço, sua casa, não são isolamento no sentido negativo. São regulação. É o cérebro saindo do modo externo e voltando para o equilíbrio interno. É aí que entra o conflito:
Existe uma pressão enorme para ser sociável, presente e disponível. Ao mesmo tempo, há também a culpa por querer se recolher. Pouca gente fala sobre esse meio-termo e muita gente se sente exausta, não só do trabalho, mas das relações. Na tentativa de explicar esse cansaço, surgem várias interpretações: “energia ruim”, “a pessoa me drenou”, “seca pimenteira”, “não era para eu estar ali”, “esta alma quer reza”… Mas, antes de tudo isso, existe uma explicação mais simples: seu cérebro pode estar sobrecarregado.
A boa notícia é que dá para ajustar esses pontos sem precisar “virar outra pessoa”. Alguns caminhos possíveis são:
- O respeito das pausas entre interações: o cérebro precisa de tempo para “processar” e voltar ao equilíbrio;
- A redução da quantidade e aumento da qualidade: menos interações, mais significativas;
- Criação de transições: um momento de silêncio entre trabalho e vida pessoal muda completamente a experiência;
- Compreensão dos seus limites sem culpa: isso não é falta de habilidade social, é autorregulação.
- Não romantizar o excesso: estar disponível o tempo todo não é saudável, é desgaste!
A questão central não é sobre evitar pessoas, é sobre conseguir estar com elas sem se perder de si. Eu continuo gostando de gente. De conversar, ouvir histórias. Mas também continuo amando meus 1032m2 de terreno da minha casa, meu silêncio, minhas plantas, meus filhos de 4 patas e minhas séries investigativas.
Talvez o equilíbrio esteja exatamente aí. Entre o mundo e o recolhimento, sem culpa e sem rótulos. Sem medo de falar. Porque, sinceramente, não estou preocupada com curtidas. Quero me sentir bem com a pessoa que sou e, aos 65 anos, me sinto ainda mais confortável na minha própria pele.
(*) Atual presidente do Conselho e sócia-fundadora da Blue6ix Tecnologia ([email protected]).
