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Depois do crachá e antes do batom: a pausa que ninguém escuta (mas todas sentem)

em A Outra Sala
terça-feira, 22 de julho de 2025

Ana Winckler (*)

Tem uma hora do dia em que a gente não é crachá nem é batom.

É o intervalo não remunerado entre o call que estressa e o corretivo que disfarça.

É ali, nesse vão entre o relatório e o espelho do banheiro, que mora um silêncio.

E talvez seja justamente aí que a gente se perca.

Se somos mais de 50% nas áreas de RH, como mostram dados da ABRH, por que ainda é tão difícil ver uma puxando a outra sem puxar também o próprio tapete?

Será que a gente não escuta a outra porque também não se escuta?

Será que cuidamos tanto dos outros que esquecemos de cuidar de quem cuida?

Não é julgamento. É escuta.

De um sistema que cobra empatia, entrega, leveza — e entrega burnout como brinde.

A neurociência social já mostrou: rivalidade entre mulheres não é biológica, é construída.

Em ambientes de escassez — de espaço, afeto ou poder, competição se infiltra.

Não porque somos rivais, mas porque nos ensinaram a sobreviver sem apoio.

E onde começou isso?

🎬 Lá atrás, nos filmes da adolescência:

Quantos você lembra com amizade entre mulheres sem disputa, ciúme ou competição?

Difícil, né?

Meninas Malvadas. 10 Coisas que Eu Odeio em Você. Ela é Demais. Legalmente Loira.

Sempre tem uma “popular” contra a “esquisita”. Uma que precisa mudar pra ser aceita.

A outra é rival, nunca aliada.

A semente foi plantada cedo — e regada com trilha sonora romântica.

Corta para o mundo corporativo.

A mulher que sobe e não “ajuda” a outra é chamada de Abelha Rainha.

Mas estudos da Harvard Business Review (2021) mostram que isso não é ego.

É pressão. É cobrança para parecer imparcial num sistema que não legitima o feminino como potência.

Enquanto isso, o autocuidado é romantizado.

“Faça yoga, tome água, respire fundo.”

Mas ninguém pergunta por que a gente está sem ar.

Cuidar de quem cuida não é mimo.

Não é função exclusiva do RH.

É cultura. É política de permanência.

E talvez a tal fórmula da sororidade não comece puxando,

mas parando. Escutando. Reaparecendo pra si.

Entre o crachá e o batom.

Porque mulher que se escuta com verdade

não precisa disputar palco.

Ela cria novos espaços.

E isso, com ou sem gloss,

é a revolução mais bonita que já se viu.

(*) Psicóloga, escritora e rebelde afetuosa do mundo corporativo — onde transforma silêncio em escuta e vulnerabilidade em potência. Com 25 anos de RH na bagagem, ela cria espaços onde até a meta sorri e o KPI pede um café.