Ana Winckler (*)
Tem uma hora do dia em que a gente não é crachá nem é batom.
É o intervalo não remunerado entre o call que estressa e o corretivo que disfarça.
É ali, nesse vão entre o relatório e o espelho do banheiro, que mora um silêncio.
E talvez seja justamente aí que a gente se perca.
Se somos mais de 50% nas áreas de RH, como mostram dados da ABRH, por que ainda é tão difícil ver uma puxando a outra sem puxar também o próprio tapete?
Será que a gente não escuta a outra porque também não se escuta?
Será que cuidamos tanto dos outros que esquecemos de cuidar de quem cuida?
Não é julgamento. É escuta.
De um sistema que cobra empatia, entrega, leveza — e entrega burnout como brinde.
A neurociência social já mostrou: rivalidade entre mulheres não é biológica, é construída.
Em ambientes de escassez — de espaço, afeto ou poder, competição se infiltra.
Não porque somos rivais, mas porque nos ensinaram a sobreviver sem apoio.
E onde começou isso?
🎬 Lá atrás, nos filmes da adolescência:
Quantos você lembra com amizade entre mulheres sem disputa, ciúme ou competição?
Difícil, né?
Meninas Malvadas. 10 Coisas que Eu Odeio em Você. Ela é Demais. Legalmente Loira.
Sempre tem uma “popular” contra a “esquisita”. Uma que precisa mudar pra ser aceita.
A outra é rival, nunca aliada.
A semente foi plantada cedo — e regada com trilha sonora romântica.
Corta para o mundo corporativo.
A mulher que sobe e não “ajuda” a outra é chamada de Abelha Rainha.
Mas estudos da Harvard Business Review (2021) mostram que isso não é ego.
É pressão. É cobrança para parecer imparcial num sistema que não legitima o feminino como potência.
Enquanto isso, o autocuidado é romantizado.
“Faça yoga, tome água, respire fundo.”
Mas ninguém pergunta por que a gente está sem ar.
Cuidar de quem cuida não é mimo.
Não é função exclusiva do RH.
É cultura. É política de permanência.
E talvez a tal fórmula da sororidade não comece puxando,
mas parando. Escutando. Reaparecendo pra si.
Entre o crachá e o batom.
Porque mulher que se escuta com verdade
não precisa disputar palco.
Ela cria novos espaços.
E isso, com ou sem gloss,
é a revolução mais bonita que já se viu.
(*) Psicóloga, escritora e rebelde afetuosa do mundo corporativo — onde transforma silêncio em escuta e vulnerabilidade em potência. Com 25 anos de RH na bagagem, ela cria espaços onde até a meta sorri e o KPI pede um café.
