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A Síndrome da Expectativa: adultos cansados de carregar o mundo que não prometeram segurar

em A Outra Sala
terça-feira, 09 de dezembro de 2025

Ana Luisa Winckler (*)

Às vezes eu olho em volta, e dentro, e penso que a minha geração foi educada num idioma que não nos pertence mais.
Um idioma feito de verbos imperativos: seja, faça, cresça, aguente, supere.
Como se a nossa existência fosse um projeto de engenharia emocional.

Crescemos achando que tudo dependia de nós.
Tudo.
Como se tivéssemos nascido com uma chave mestra escondida no bolso da alma, capaz de abrir qualquer porta, desde que a gente não chorasse, não falhasse, não pedisse colo.

E então virou isso: adultos cansados, mas funcionais; fortes, mas com rachaduras invisíveis; competentes, mas com aquela culpa que lateja sempre que o peito pede pausa.

A gente não aprendeu a descansar.
Aprendeu a performar o descanso, que é diferente.
Postar a praia, fingir o alívio, seguir entregando o mundo enquanto tenta respirar pelas frestas.

E olha que ironia triste: fomos chamados de “geração do privilégio”, quando na verdade somos a geração que não pôde ser adolescente porque a vida convocou cedo demais.
Teve quem cuidou da casa.
Teve quem cuidou dos silêncios familiares.
Teve quem cuidou do humor de alguém instável.
Teve quem cuidou do próprio medo.

E agora, com trinta, quarenta anos, tentamos aprender algo que nunca nos ensinaram:
que viver não é um projeto de alta performance.

Mas ainda existe uma ferida, a tal da Síndrome da Expectativa.
Aquela crença infiltrada de que, se o mundo continua torto, a culpa é nossa.
Se o trabalho nos esmaga, fomos nós que “não nos organizamos direito”.
Se a vida dói, “faltou gratidão”.

É violento, eu sei.
Mas é o tipo de violência que não aparece no jornal.
Ela vive dentro de casa, dentro do peito, dentro do espelho.

E nesse espelho mora outra coisa: os papéis que nos deram para interpretar.
Arquétipos sociais que apertam:
a filha que nunca erra,
a profissional que não desaba,
a mulher que equilibra tudo,
a alma que evolui na mesma velocidade do feed.

Quando foi que nos convenceram de que existir era currículo?

Quando foi que confundimos potência com exaustão?

Quando foi que decidiram que senso de responsabilidade era sinônimo de carregar o planeta nas costas?

A verdade é que estamos reaprendendo a viver.
Um pouco tarde, talvez, mas finalmente do nosso jeito.
Reescrevendo a pergunta que ficou adormecida por décadas:

E se eu não quiser salvar o mundo?
E se tudo o que eu quiser, agora, for me salvar de mim mesma?

Não é desistência.
É coragem.
A coragem de admitir que a promessa do “você pode tudo” nos adoeceu.
E que a liberdade verdadeira talvez comece no contrário disso: no direito de não precisar ser tudo.

Talvez seja esse o novo sucesso: descer do altar, fechar o PowerPoint interno e recuperar partes da nossa adolescência sequestrada.
Bebê-las devagar.
Com cuidado.
Com ternura por essa versão nossa que tentou tanto, mas tanto, que se esqueceu de existir.

A Síndrome da Expectativa se desfaz assim: não quando a gente renuncia ao mundo,
mas quando devolve a ele o peso que nunca foi nosso.

E finalmente respira.
Respira como quem não deve nada.
Respira como quem existe sem se justificar.
Respira como quem, pela primeira vez, descobriu que o mundo continua girando, mesmo quando a gente para.

(*) Psicóloga, escritora e rebelde afetuosa do mundo corporativo — onde transforma silêncio em escuta e vulnerabilidade em potência. Com 25 anos de RH na bagagem, é CEO da Prisma Consultoria, e cria espaços onde até a meta sorri e o KPI pede um café.