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O que a gente realmente tira no Carnaval

em A Outra Sala
quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Ana Luisa Winckler (*)

No meio do Carnaval encontrei um cartaz colado em um poste.
Papel simples, tipografia de gráfica rápida, quase rasgando com o calor e a umidade da rua. Dizia:

“A gente veste fantasia pra sobreviver em sociedade.
No Carnaval, a gente tira.”

A frase parece sobre festa.
Mas não é.

Ela é sobre convivência humana.

Porque o Carnaval não é o momento em que o país enlouquece.
É o momento em que o país suspende o autocontrole social por alguns dias.

Durante o ano inteiro aprendemos a administrar impressão.
Não é apenas trabalhar, é parecer adequado.
A pessoa regula o tom de voz, a opinião, o humor, a intensidade emocional, a roupa, a reação e até o entusiasmo. Não por maldade coletiva, mas por sobrevivência relacional.

Todo ambiente social tem custo.
O corporativo só tem mais memória.

Ali, cada gesto pode ser interpretado futuramente.
Cada fala pode voltar em uma reunião.
Cada posicionamento pode virar reputação.

E o cérebro humano responde a isso de forma previsível: reduz espontaneidade e aumenta vigilância interna.

É por isso que a maior parte das pessoas não chega exausta apenas pelo volume de trabalho.
Chega exausta por gestão de si.

O Carnaval interrompe isso.

Não porque libera irresponsabilidade, mas porque suspende hierarquia simbólica.
Na rua, não há cargo visível, histórico profissional ou coerência biográfica exigida. Ninguém precisa ser consistente com a própria versão de ontem.

E algo curioso acontece.

Gente tímida conversa.
Gente rígida dança.
Gente silenciosa canta alto.
Pessoas que dizem “não sou assim” descobrem que talvez sejam.

Ou seja: o problema nunca foi comunicação.
Foi segurança psicológica.

Quando o risco de julgamento diminui, a expressão aparece imediatamente.
O comportamento não se deteriora, ele se humaniza.

Isso explica também a energia coletiva.
Milhares acordam cedo, caminham quilômetros, ensaiam semanas e trabalham sem remuneração por uma escola de samba. Nenhuma política de bônus produz esse tipo de dedicação.

Porque pertencimento mobiliza mais do que recompensa.

O excesso do Carnaval também não é só excesso.
É descarga.
Uma sociedade muito regulada emocionalmente cria válvulas coletivas de expressão. A espontaneidade reprimida não desaparece, ela se acumula.

Mas a parte mais interessante vem depois.

Quarta-Feira de Cinzas.

O glitter ainda está na pele, mas o papel social retorna. E muita gente sente um incômodo que não é ressaca. É a percepção de que aquela versão de si não cabe na rotina.

O problema nunca foi a festa acabar.
É voltar a caber.

Empresas discutem produtividade, metas e performance.
Mas ignoram um dado simples de comportamento humano: pessoas sustentam esforço onde não precisam sustentar personagem.

O Carnaval não cria uma nova personalidade.
Ele revela quanto da anterior estava comprimido.

A frase do cartaz, no fundo, não fala sobre fantasia.
Fala sobre cotidiano.

Durante quatro dias a gente não vira outra pessoa.
A gente só não precisa administrar quem é.

E talvez por isso o país pareça tão vivo nesse período.
Não porque trabalha menos.

Porque, por alguns dias, precisa fingir menos.Cultura organizacional não se sustenta apenas com eficiência.
Ela se sustenta quando o indivíduo não precisa escolher entre pertencer e existir.

(*) Psicóloga, escritora e rebelde afetuosa do mundo corporativo — onde transforma silêncio em escuta e vulnerabilidade em potência. Com 25 anos de RH na bagagem, é CEO da Prisma Consultoria, e cria espaços onde até a meta sorri e o KPI pede um café.