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A língua que todo mundo entende

em A Outra Sala
terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Ana Luisa Winckler (*)

Nesta semana aconteceu um fenômeno curioso.
Não foi uma guerra.
Não foi uma eleição.
Não foi uma inovação tecnológica.

Foi um show.

O artista porto-riquenho Bad Bunny transformou o show do intervalo do Super Bowl LX em algo maior que um momento de entretenimento. No maior palco televisivo do planeta, assistido por mais de cem milhões de pessoas, sua apresentação deixou de ser apenas musical e passou a funcionar como um gesto cultural coletivo, uma celebração de pertencimento e identidade compartilhada

Durante alguns minutos, pessoas de países, crenças e opiniões completamente diferentes estavam sentindo a mesma coisa ao mesmo tempo.
Não concordando – sentindo.

No meio do maior espetáculo televisivo do planeta, um artista latino cantou em espanhol para uma audiência global. E encerrou com uma frase quase infantil de tão simples.

“A única coisa mais poderosa do que o ódio é o amor.”

Parece pouco.
Mas não foi.

Porque a frase não funcionou como discurso.
Funcionou como símbolo.

A gente costuma imaginar que as sociedades mudam quando novas ideias aparecem. Não é verdade. Ideias existem há séculos. A humanidade sabe, teoricamente, quase tudo o que precisa saber para conviver melhor. O problema nunca foi falta de argumento — foi falta de experiência emocional compartilhada.

E ali aconteceu algo raro: milhões de pessoas assistiram juntas não a um artista performando… mas a pessoas convivendo.

Não havia estética de poder no palco.
Havia festa de família.
Havia casa.
Havia casamento.
Havia gente comum dançando.

O cérebro humano reconhece isso imediatamente. Antes de qualquer interpretação, ele classifica aquela cena como segurança social.

Nós esquecemos disso: amor não começa como sentimento.
Começa como percepção de segurança.

Uma criança não ama porque entende.
Ela ama porque não precisa se proteger.

Quando vemos coletividade, cuidado e pertencimento, algo muito primitivo em nós relaxa. O corpo entende: não estou sozinho. E, por alguns minutos, pessoas em fusos horários diferentes tiveram exatamente essa experiência simultânea.

Isso é culturalmente mais potente do que qualquer debate.

Porque discussões passam pelo córtex – o lugar da razão.
Mas símbolos atravessam direto para o sistema límbico – o lugar do vínculo.

É por isso que você pode discordar de uma opinião, mas não consegue “discordar” de uma sensação. Você não argumenta contra um arrepio.

A cultura faz algo que a política não consegue: ela cria memória emocional coletiva.

Por isso shows, Copas do Mundo, velórios históricos e músicas da adolescência nos marcam tanto. Eles não informam. Eles organizam pertencimento.

No fundo, o que viralizou não foi a frase.

Foi o que ela permitiu lembrar.

Que antes de sermos opinião, profissão, ideologia ou cargo, nós somos uma espécie social profundamente dependente de reconhecimento mútuo. O ser humano tolera quase tudo – menos a sensação de não ter lugar.

Talvez por isso a reação tenha sido tão intensa. Não porque alguém ensinou algo novo, mas porque, por alguns minutos, o mundo experimentou algo antigo:

a possibilidade de existir junto sem precisar se explicar.

Amor, psicologicamente, não é romantismo.

É a rara experiência de baixar as defesas na presença do outro.

E quando milhões de pessoas fazem isso ao mesmo tempo, não estamos diante de entretenimento.

Estamos diante de cultura lembrando à humanidade quem ela é, ainda que dure apenas o tempo de uma música.

“The only thing more powerful than hate is love.”

— Bad Bunny

Ilustrações: imagens autorais criadas com apoio de inteligência artificial para a coluna A Outra Sala.
Bandeiras e mapa possuem caráter simbólico/ilustrativo; eventuais imprecisões não representam referência geopolítica oficial.

(*) Psicóloga, escritora e rebelde afetuosa do mundo corporativo — onde transforma silêncio em escuta e vulnerabilidade em potência. Com 25 anos de RH na bagagem, é CEO da Prisma Consultoria, e cria espaços onde até a meta sorri e o KPI pede um café.