Ana Luisa Winckler (*)
Eu lembro do começo da pandemia.
Eu já estava inquieta.
Lendo, acompanhando, percebendo padrão de contágio, curva exponencial, comportamento social. Enquanto isso, tinha gente indo em festa como se fosse réveillon permanente.
E eu dizia:
“Isso vai escalar.”
“Isso não está sob controle.”
“Isso vai fechar tudo.”
A resposta vinha com carinho, mas vinha:
“Você está exagerando.”
“Você sempre pensa no pior.”
“Não vamos viver com medo.”
Meses depois, hospitais lotados.
Curiosamente, ninguém voltou para dizer: “Você estava certa.”
Esse é o detalhe mais interessante da Síndrome de Cassandra.
Ela não é sobre errar.
Ela é sobre ver antes.
Na mitologia, Cassandra recebeu de Apolo o dom da profecia. Quando recusou o Deus, foi amaldiçoada: continuaria vendo o futuro, mas ninguém acreditaria.
Repare na sofisticação da punição.
Ele não tirou a inteligência dela.
Ele tirou a credibilidade.
Não é genial – e assustador – que o castigo não tenha sido o silêncio, mas o descrédito?
Cassandra avisou sobre a queda de Troia.
Falou do cavalo.
Falou da invasão.
Troia preferiu preservar o conforto.
Troia caiu.
A Síndrome de Cassandra não é uma doença.
É um fenômeno social.
Ela aparece quando alguém:
• identifica risco antes da maioria
• percebe padrão antes da estatística
• sente deslocamento antes do colapso
E é tratada como dramática, negativa ou ansiosa.
Hoje, estamos cercados de Cassandras.
Quem alerta sobre os impactos psíquicos da inteligência artificial é chamado de alarmista.
Quem aponta escaladas geopolíticas é visto como pessimista.
Quem fala de feminicídio estrutural é acusada de exagero ideológico.
Até que os números crescem.
Até que o relatório sai.
Até que o desastre ganha nome próprio.
E aí a narrativa muda para: “Era imprevisível.”
Era?
Existe um viés cognitivo chamado “normalidade ilusória”. Nosso cérebro prefere acreditar que o futuro será uma extensão confortável do presente. Reconhecer o risco exige mudança. Mudança exige ação. Ação exige custo.
É mais barato chamar Cassandra de histérica.
E aqui entra a parte que dói.
Quantas mulheres disseram:
“Ele está diferente.”
“Isso está piorando.”
“Eu tenho medo.”
E ouviram:
“Você está exagerando.”
“Não cria problema.”
“Ele é assim mesmo.”
O feminicídio raramente começa com manchete.
Começa com um alerta desacreditado.
Nas empresas, a cena se repete.
A funcionária diz:
“Essa meta está adoecendo o time.”
“Essa cultura está ficando tóxica.”
“Isso vai dar problema.”
A resposta corporativa costuma ser elegante:
“Precisamos de mais resiliência.”
Meses depois: afastamentos por ansiedade, denúncias formais, turnover alto.
E alguém afirma, sério: “Ninguém poderia prever.”
Poderia.
Mas estava na outra sala.
Talvez a maldição de Cassandra não esteja nela.
Talvez esteja na nossa dificuldade de escutar o que ameaça nossa sensação de controle.
Porque validar Cassandra exige admitir que algo precisa mudar.
E mudar desorganiza hierarquias, rotinas, privilégios.
É mais confortável desqualificar.
Eu aprendi uma coisa naquele início de pandemia.
Ser Cassandra não é sobre estar certa.
É sobre sustentar a solidão de ver antes.
E aprendi algo mais incômodo:
Às vezes nós somos Troia.
Às vezes também descredibilizamos quem está enxergando primeiro.
Talvez maturidade coletiva seja isso: escutar antes do colapso virar estatística.
Porque o cavalo já está na praça.
E ele não é de madeira.
Ele tem Wi-Fi.
(*) Psicóloga, escritora e rebelde afetuosa do mundo corporativo — onde transforma silêncio em escuta e vulnerabilidade em potência. Com 25 anos de RH na bagagem, é CEO da Prisma Consultoria, e cria espaços onde até a meta sorri e o KPI pede um café.
