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2025: O ano em que todo mundo virou especialista em gente — sem saber muito bem lidar com pessoas

em A Outra Sala
terça-feira, 06 de janeiro de 2026

Ana Luisa Winckler (*)

Se 2025 fosse um relatório corporativo, ele começaria assim:
“Avançamos muito no discurso. A execução segue em análise.”

Foi o ano em que gestão, negócios e liderança entraram definitivamente no território do sensível, mas ainda com medo de sujar o sapato.

Falamos, como nunca, de burnout, saúde mental, ambientes tóxicos, liderança humanizada, diversidade, pertencimento, ego, poder, opinião sem base e da estranha compulsão contemporânea de falar alto sobre tudo, mesmo sem dados, método ou responsabilidade emocional.

Falamos, e muito.

Falamos sobre pessoas adoecendo no trabalho.
Sobre líderes que confundem autoridade com agressividade.
Sobre empresas que dizem “nosso ativo são as pessoas”, mas tratam gente como custo variável.
Sobre discursos bonitos que não sobrevivem ao primeiro trimestre ruim.

Falamos também de IA, claro.
Como se a tecnologia fosse resolver o que há décadas evitamos encarar: relações mal-cuidadas, estruturas adoecidas e modelos de sucesso que funcionam muito bem… até o corpo pedir a conta.

2025 foi o ano do mal-estar nomeado.
E isso não é pouco.

Nunca se escreveu tanto sobre exaustão feminina, masculinidades frágeis no poder, lideranças despreparadas emocionalmente e ambientes que premiam quem grita mais, não quem sustenta melhor.

Nunca houve tanto conteúdo sobre empatia.
E nunca foi tão evidente o abismo entre falar sobre pessoas e saber lidar com elas.

No LinkedIn, fomos todos líderes conscientes.
Na prática, muitos seguiram operando no velho modelo:
manda quem pode, adoece quem precisa continuar pagando boletos.

Empresas investiram em bem-estar, desde que ele coubesse num app, num workshop pontual ou num post bonito de endomarketing.
Investiram em comitês, desde que eles não mexessem demais no jogo de poder.
Investiram em diversidade, desde que ela não fosse “diversa demais”.

Ainda assim – e isso importa – algo se deslocou.

O incômodo ganhou voz.
A normalização do abuso começou a ser questionada.
A romantização do excesso começou a soar cafona.
E o discurso de “é assim mesmo” perdeu um pouco da sua força.

O problema é que agora chegamos a 2026 com uma encruzilhada clara.

Ou seguimos colecionando promessas de ano novo corporativas, mais engajamento, mais propósito, mais inovação, mais humanidade nos slides, ou começamos a assumir compromissos menos glamourosos e muito mais difíceis.

Talvez 2026 não precise de mais tendências.
Talvez precise de:

  • Menos performar consciência e mais sustentar escolhas difíceis.
  • Menos líderes-heróis e mais sistemas que não esmagam quem funciona bem.
  • Menos opinião em vídeo e mais responsabilidade pelo impacto do que se diz.
  • Menos pressa por resultado e mais maturidade para não destruir gente no caminho.

Como líderes, talvez a promessa não seja “inspirar”, mas não traumatizar.
Como empresas, talvez não seja “crescer a qualquer custo”, mas parar de chamar colapso de cultura forte.
Como sociedade, talvez não seja falar mais alto, mas pensar melhor antes de opinar.

E A Outra Sala nasceu exatamente para isso em 2025: para atravessar o discurso fácil,
cutucar o que incomoda, misturar dado com humanidade, método com ironia, e lembrar que trabalho é feito por pessoas – com corpo, história e limite.

Que 2026 venha com menos verniz e mais verdade.
Menos promessa e mais coerência.
Menos teatro corporativo e mais coragem adulta.

E, por favor, com humor.
Porque sem ele, nem a lucidez sobrevive ao primeiro e-mail da segunda-feira.

Feliz Ano novo!

A Outra Sala segue aberta.
Quem quiser entrar, que venha disposto a pensar.

(*) Psicóloga, escritora e rebelde afetuosa do mundo corporativo — onde transforma silêncio em escuta e vulnerabilidade em potência. Com 25 anos de RH na bagagem, é CEO da Prisma Consultoria, e cria espaços onde até a meta sorri e o KPI pede um café.