Neiva Dourado Martins Mendes (*)
Há algum tempo eu observo um comportamento que provavelmente não acontece apenas nas reuniões que participo. Alguém começa a explicar um problema, desenvolver um raciocínio, apresentar uma ideia e, antes que termine, as coisas já começam a acontecer. Uma mensagem é respondida, um e-mail é consultado, outra janela é aberta. Bastam algumas palavras para alguém concluir o que será dito e agir antes mesmo de conhecer o restante da história.
Não estamos apenas distraídos. Estamos confundindo rapidez com compreensão, antecipação com inteligência e multitarefa com produtividade. E não são a mesma coisa.
A pesquisadora Gloria Mark, da Universidade da Califórnia em Irvine, estuda há décadas como distribuímos atenção diante das telas. Em 2004, encontrou uma permanência média de aproximadamente 150 segundos antes de mudarmos o foco. Nas medições recentes, chegamos a cerca de 47 segundos. Não estamos apenas consumindo mais informação, estamos permanecendo menos tempo em cada assunto.
Pesquisadores da Johns Hopkins University identificaram, em camundongos, um grupo de neurônios do tronco cerebral envolvidos na capacidade de selecionar aquilo que merece atenção e ignorar distrações. Quando esses neurônios foram temporariamente desligados, os animais ficaram muito mais suscetíveis aos estímulos irrelevantes. Quando a atividade foi restaurada, recuperaram a capacidade de manter o foco. O estudo sugere algo que vivenciamos diariamente: prestar atenção exige que nosso cérebro selecione aquilo que importa e consiga deixar o restante de lado.
Mas qual ambiente estamos oferecendo a esse cérebro? WhatsApp, Teams, e-mail, notificações, redes sociais, celular sobre a mesa, relógio vibrando, dez abas abertas, uma reunião acontecendo e uma conversa paralela na tela. Tudo aparentemente importante. Tudo aparentemente urgente.
Não culpo a tecnologia; eu a utilizo fortemente e acredito profundamente no que ela proporciona. O problema não está nas ferramentas, mas na maneira como nos comportamos diante delas. Existe uma diferença enorme entre perder a atenção e desistir de oferecê-la. Perder atenção pode ter fatores externos; desistir dela é comportamento.
Nosso cérebro se distrai; isso é humano. O que podemos questionar é a transformação dessa vulnerabilidade em hábito. Se participo de uma conversa enquanto respondo mensagens ou se executo algo a partir de um fragmento sem compreender o raciocínio completo, a questão não é apenas neurológica; é comportamental e profissional.
Na Blue6ix, analisamos milhões de interações de clientes, procurando compreender palavras, contexto, emoção, silêncio e intenção. Quanto mais estudamos comportamento humano, mais evidente fica a contradição: temos tecnologias extraordinárias para ouvir pessoas em alta escala e menos capacidade humana de escutá-las.
Existe uma diferença entre ouvir palavras e acompanhar um raciocínio. Para compreender alguém, precisamos permitir que uma ideia se complete, resistir à vontade de antecipar a conclusão. Talvez por isso cresça o interesse por atividades que recuperam experiências de atenção sem recompensa imediata: caminhar, atividades manuais, leitura, meditação.
Uma reunião pode ser um excelente exercício. Fechar as telas que não pertencem à conversa. Não responder imediatamente à mensagem que chegou. Esperar alguém concluir. Fazer perguntas antes de executar. Ouvir é também questão de respeito. Existe um custo inerente à atenção fragmentada. Uma orientação mal compreendida produz retrabalho; detalhes ignorados podem afetar decisões e resultados. A atenção é uma das nossas competências mais valiosas, e nenhuma conquista tecnológica deveria nos fazer abrir mão da capacidade de permanecer em uma conversa, de ouvir até o fim.
(*) Presidente do Conselho e sócia-fundadora da Blue6ix Tecnologia ([email protected]).
