Neiva Dourado Martins Mendes (*)
Talvez uma das coisas mais interessantes sobre envelhecer seja desenvolver uma espécie de sensibilidade para perceber mudanças sorrateiras antes que elas virem estatística. Tenho observado algo que me inquieta há algum tempo.
As pessoas estão cansadas, mas não é apenas cansaço físico, é outro tipo de exaustão (confesso que também estou exausta!), mais profunda, mais emocional e mais difícil de explicar. A sensação é que passamos os últimos anos vivendo em modo permanente de performance. Performance no trabalho, nas emoções, na estética, no convívio social e até no descanso. Tudo virou vitrine, a chamada “vida editada”.
As redes sociais transformaram vidas em histórias lindas de produtividade, felicidade e sucesso! O problema é que o cérebro humano não foi desenhado para sustentar esse nível de exposição, comparação e estimulação constante, isso é destrutivo! Cansativo! Talvez estejamos começando a pagar a conta neurológica.
A neurociência já mostra que excesso de estímulo, urgência permanente e hiperconectividade mantêm o cérebro em estado de alerta prolongado. Esse tipo de estímulo altera a atenção, memória, tomada de decisão e capacidade emocional. O corpo até desacelera, mas a mente não desliga. Vivemos cansados e, ainda assim, culpados por descansar.
O mais curioso é que esse fenômeno já começa a aparecer no comportamento de consumo. Consumidores estão menos tolerantes ao excesso (as canetinhas confirmam), menos dispostos a navegar horas em plataformas, e mais impacientes com experiências complicadas.
Por isso, talvez, exista hoje uma valorização crescente de tudo aquilo que reduz carga mental:
· Simplicidade.
· Silêncio.
·Clareza.
·Curadoria.
·Experiências sem atrito.
Depois de décadas trabalhando com comportamento humano e experiência do cliente, tenho a impressão de que estamos entrando em uma nova fase do consumo. Durante muito tempo, o mercado acreditou que mais estímulo gerava mais engajamento. Agora começamos a perceber que o excesso também gera esgotamento, e muitas empresas ainda não entenderam completamente a profundidade dessa mudança.
Continuam operando em lógica de captura de atenção máxima:
· Mais notificações.
· Mais campanhas.
· Mais urgência.
· Mais contato.
· Mais pressão.
Como se o consumidor ainda tivesse capacidade emocional infinita para processar tudo isso, mas não tem. Talvez o próximo grande diferencial competitivo não seja mais gerar desejo, seja reduzir ansiedade.
Na Blue6ix observamos isso com muita objetividade. Os consumidores não estão apenas buscando eficiência, estão buscando alívio. Experiências que simplifiquem, que resolvem, que respeitem a energia mental, que não transformem cada interação em desgaste, porque existe uma mudança importante acontecendo: O consumidor cansou de performar.
Ele começa a valorizar marcas que não exigem dele um estado permanente de atenção, comparação e exaustão. Para mim, luxo nunca foi status, mas para os consumidores o novo status pode ser leveza. Aposto nisso! Empresas que entenderem isso antes das outras estarão muito mais preparadas para o comportamento humano que vem pela frente.
Ao fim e ao cabo, a disputa do futuro talvez não seja mais pela atenção, mas pela preservação da saúde mental.
(*) Presidente do Conselho e sócia-fundadora da Blue6ix Tecnologia ([email protected]).
Nem todo cansaço vem do trabalho, às vezes, vem das pessoas. – Jornal Empresas & Negócios
