Ana Luisa Winckler (*)
Tem uma sala nas empresas que não aparece no organograma.
Ela não entra nas reuniões.
Mas sustenta grande parte do que acontece ali dentro.
Essa sala começa cedo.
Às vezes na madrugada.
Às vezes antes do primeiro e-mail.
É onde alguém tentou fazer um filho dormir.
Negociou com uma criança que não queria ir para a escola.
Saiu de casa já cansado.
E depois… aparece na empresa.
Pontual. Funcional. Entregando.
Como se nada disso existisse.
Em 2024, autoridades de saúde dos Estados Unidos publicaram um alerta: pais estão mais estressados do que outros adultos, e muitos relatam níveis considerados esmagadores.
O dado importa.
Mas o que ele revela é mais profundo: a parentalidade deixou de ser privada e virou questão estrutural.
Existe uma nostalgia confortável quando falamos do passado.
“Antes era mais simples criar filhos.”
Era mesmo.
Mas também era menos consciente.
Os pais de hoje não estão mais frágeis.
Estão mais atentos, mais implicados, mais responsáveis emocionalmente.
E isso custa.
Saímos da TV de tubo- poucos canais, um botão resolvia – para o streaming infinito, onde tudo exige escolha.
A parentalidade fez o mesmo caminho.
Hoje, criar um filho envolve:
- segurança
- desenvolvimento emocional
- presença real
- gestão de telas
- construção de identidade
É quase um cargo executivo.
Sem férias.
Sem manual.
E tem um detalhe silencioso: os pais de hoje são crianças de ontem que nunca tiveram tempo de se entender.
Aprenderam a funcionar.
A dar conta.
A sustentar.
Mas agora precisam ensinar o que, muitas vezes, não receberam.
Dentro das empresas, isso ainda é chamado de “vida pessoal”.
Mas os números contam outra história:
Entre 35% e 45% da força de trabalho no Brasil tem filhos.
Ou seja: quase metade da empresa está criando alguém enquanto tenta não colapsar.
Agora soma:
- metas agressivas
- jornadas longas
- urgência constante
- hiperconectividade
E surge a pergunta: em que momento achamos que isso seria sustentável?
A NR-1 passou a exigir atenção aos riscos psicossociais.
Mas há um ponto cego: a parentalidade não aparece como risco, mesmo sendo um dos principais organizadores da vida emocional adulta.
Ela impacta sono, atenção, regulação emocional, energia.
E, ainda assim, segue invisível.
Talvez o erro não esteja nos pais.
Mas no modelo.
O mundo evoluiu em tecnologia, velocidade, exigência.
Mas não revisou o básico: como se sustenta uma vida humana dentro disso.
A empresa não contrata só um profissional.
Contrata o sistema emocional que sustenta a vida dele fora dali.
E esse sistema… está cansado.
A gente saiu da TV de tubo.
Mas continua esperando que pessoas funcionem como se o mundo ainda fosse simples.
E talvez não seja sobre adaptação.
Talvez seja hora de revisão.
(*) Psicóloga, escritora e rebelde afetuosa do mundo corporativo — onde transforma silêncio em escuta e vulnerabilidade em potência. Com 25 anos de RH na bagagem, é CEO da Prisma Consultoria, e cria espaços onde até a meta sorri e o KPI pede um café.
