Saídas

Mario Enzio (*)

Quem quer que estivesse fora do país por uns meses e voltasse diria que alguma coisa está mudando.

Ou se acordasse de um sono profundo, de uma viagem distante, de um dia para outro pensaria que alguma coisa ainda não mudou. Mudar em política não é da noite para o dia. São coisas que se acomodam ou se arranjam em anos, talvez muitos anos. Depois que há pouco mais de semanas, pude presenciar velhas figuras que voltaram à mídia não me surpreendi: Sarney e Lula e alguns ministros de Dilma. E o ex-presidente dizendo que irá viajar pelo Brasil para debater a situação política.

O que lhe parece? Surreal? Não, normal. Em política parece-me que tudo é permitido.

Considero que sempre é necessário que exista um ato de ruptura para que a mudança possa ser profunda. Escândalos são bons motivadores. Vejamos o caso Watergate. Já sei: você me dirá que foi nos Estados Unidos nos anos setenta. Só peguei como um exemplo: um caso emblemático que fez um presidente renunciar.

Collor renunciou depois que se viu em uma situação de denúncia, apesar do processo de “impeachment” ter se concretizado. Getúlio se matou depois que não conseguiu lidar com os desmandos de sua guarda pessoal, dando asas aos seus desejos passados.

Há sempre um fato que pode gerar uma quebra no estado das coisas harmoniosas ou estabelecidas. Outro exemplo, dessas rupturas ao “status quo” foi uma foto do menino sírio afogado nas praias turcas que rodaram a mídia. Vê-se que o êxodo dos imigrantes de diversos países do Oriente e da África já representam números que recordam as mazelas da II Guerra Mundial.

Pode ser que a política dos países europeus se renda a essa foto chocante? Um ponto de distensão no tecido social. Um rompimento no que se pode chamar de governabilidade. Quando o desequilíbrio de forças faz com que pensemos na razão de estarmos envolvidos em uma mesma sociedade que não tem uma solução que possa ser considerada como viável para os mais simples problemas. Quando nos vemos nessas condições, parece-me que o melhor a fazer é mudar com o que está, aparentemente, desorganizado.

Aí vem uma pergunta clássica: – quantos estão sensibilizados com essas questões? Quantas pessoas têm consciência de que uma mudança poderia ser mais promissora do que deixar as coisas do jeito que estão? Em política, quem não participa ativamente, mal sabe o que poderia lhe ser mais conveniente a não ser o que lhe motiva em suas vontades básicas ou as relativamente secundárias. Refiro-me àquelas que nos mantém com algum alimento na mesa, alguma segurança, um emprego, mesmo que em subcondições, e relativa mobilidade urbana.

Sempre me provoco a dar alguma solução, para ir melhorando o entorno de onde vivo. Uma solução simples é sempre mais bem-vinda do que mudanças radicais. Daí penso sempre na votação do ano seguinte: de não votar em quem não fez nada, mas fico pensando que os políticos que virão poderão incorrer na mesma prática.

Se pensar assim, jamais haverá uma mudança que possa ser consistente. E deixar os que aí estão nem sempre será a solução. Que sinuca de bico.

(*) – É Escritor, Mestre em Direitos Humanos e Doutorando em Direito e Ciências Sociais (www.marioenzio.com.br).

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