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Liderar sem perder a essência

em Fabiana Monteiro
quinta-feira, 01 de outubro de 2026

Fabiana Monteiro (*)

Samuel Xavier, Diretor Sênior LATAM da Broadcom, defende liderança com empatia, equilíbrio e autenticidade.

Uma carreira construída entre mudanças e oportunidades

Aos 59 anos, Samuel Xavier construiu uma trajetória profissional marcada por educação, música e capacidade de adaptação. Filho de um professor universitário de Matemática e de uma cantora lírica, cresceu em um ambiente no qual conhecimento e desenvolvimento pessoal faziam parte da rotina. Aos 9 anos, começou a tocar piano, experiência que também o ajudou a superar a introversão.

No fim da década de 1980, escolheu uma área ainda pouco explorada no Brasil: Tecnologia da Informação. Estudou Tecnologia em Processamento de Dados no Mackenzie, entre 1986 e 1990, enquanto iniciava a carreira profissional.

Trabalhou na FAAP, passou pela Volkswagen e por empresas de diferentes segmentos até viver uma mudança importante em 1992. Na época, já casado e com uma filha pequena, pediu demissão da Cerinter sem ter outro emprego definido.

Meses depois, ao participar de uma seleção na Intercomp Interamericana de Computação, um recrutador identificou nele potencial para marketing. O redirecionamento abriu uma nova frente profissional. Depois vieram experiências na StorageTek e na Symbol, até que, em 2003, Xavier ingressou na Brocade, multinacional especializada em infraestrutura de redes de armazenamento de dados.

A companhia foi adquirida pela Broadcom em 2017. Atualmente, Xavier ocupa o cargo de Diretor Sênior para a América Latina.

Liderança sem personagens

Depois de três décadas de experiência, Xavier acredita que bons resultados não exigem que profissionais abandonem suas características pessoais. Seu modelo de liderança busca combinar cobrança, empatia e respeito às diferenças.

Para ele, tentar transformar um introvertido em extrovertido ou um profissional de perfil executor em estrategista pode produzir o efeito contrário ao desejado. O papel do líder, em sua visão, é ajudar cada pessoa a desenvolver competências como proatividade e capacidade de decisão sem criar um personagem para atender a modelos padronizados.

Essa filosofia também passa pela vulnerabilidade. Reconhecer erros, admitir que não possui todas as respostas e pedir ajuda não representa fraqueza, segundo o executivo. Fraqueza, para ele, aparece quando alguém precisa tomar uma decisão e não consegue fazê-lo.

A busca pelo equilíbrio também chegou às páginas de um livro. Em 2024, Xavier publicou Do Excesso ao Equilíbrio, no qual reuniu frases e reflexões de livros, filmes e discursos para discutir situações cotidianas.

Na vida pessoal, mantém uma rotina de exercícios físicos e preserva a música como uma de suas principais formas de aliviar a tensão. Casado com Regiane e pai de Bettina e Vittória, procura aplicar também fora do trabalho a ideia de que decisões importantes exigem equilíbrio.

Relevância em tempos de IA

A transformação provocada pela Inteligência Artificial é outro tema que acompanha de perto. Xavier considera comum que novas tecnologias tenham seus efeitos superestimados no curto prazo e subestimados no longo prazo.

Em sua avaliação, a IA continuará provocando mudanças relevantes nos próximos cinco a dez anos, mas o elemento humano permanecerá essencial. Ele compara a tecnologia a um piano: mesmo um instrumento sofisticado depende de alguém capaz de utilizá-lo adequadamente.

Por isso, considera fundamental que profissionais entendam como a IA pode se relacionar com suas atividades, em vez de simplesmente ignorá-la ou acreditar que todas as tarefas devam ser transferidas para sistemas inteligentes.

A mesma lógica orienta sua visão sobre longevidade profissional. Xavier procura evitar o saudosismo e se atualizar constantemente para continuar relevante em um setor no qual mudanças fazem parte da rotina.

Também adotou o trabalho remoto antes da pandemia e hoje mora em Vinhedo, no interior de São Paulo. Apesar de conseguir desempenhar suas atividades a distância, mantém encontros presenciais periódicos com a equipe por considerar a interação humana indispensável.

Depois de décadas no setor de tecnologia, Xavier deseja que seu legado esteja menos associado a cargos e mais à maneira como conduziu pessoas: com equilíbrio, tratamento humano e espaço para que cada profissional pudesse alcançar resultados sem precisar abrir mão da própria essência.

(*) Chairman, CEO da Editora Global Partners – Affiliated to Institute of Coaching at McLean Hospital, associate Harvard Medical School – (ICPA). Conselheira de empresas.

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