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Governança de IA e de privacidade: até onde a equipe interna consegue ir sozinha?

em Mais
sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Mariana Dessotti (*)

Manter a governança de IA e de privacidade dentro da própria empresa é fundamental. A organização conhece seus processos, sua cultura e as decisões do negócio, e precisa manter internamente a responsabilidade sobre como esses temas são conduzidos. O que pode ser apoiado por estruturas externas é a operacionalização de determinadas atividades, especialmente quando a empresa precisa de capacidade especializada, tecnologia ou apoio para manter os processos em funcionamento.

Uma equipe interna consegue conduzir os processos relacionados à governança quando possui condições para transformar diretrizes em rotinas. Isso envolve manter inventários atualizados, avaliar riscos e fornecedores, acompanhar planos de ação, realizar treinamentos, produzir indicadores e registrar evidências das decisões tomadas.

Também é importante entender que a governança permeia todas as áreas da empresa. Jurídico, tecnologia, segurança da informação, compliance, produto e negócios participam das decisões relacionadas à privacidade e à inteligência artificial, cada um a partir de suas responsabilidades. A operação dessas atividades, por outro lado, pode estar concentrada em uma área ou ser apoiada por uma estrutura especializada, desde que as responsabilidades estejam claramente definidas.

Quando a empresa possui estrutura e capacidade para conduzir essa operação internamente, o apoio externo pode ser pontual. Especialistas podem contribuir na validação de processos, revisão de estruturas ou condução de atividades que exigem conhecimento específico, sem retirar da organização a responsabilidade pela governança.

Onde começam os limites
A questão ganha complexidade quando a governança precisa acompanhar uma operação que muda continuamente. Novos sistemas são incorporados, fornecedores entram na cadeia, diferentes áreas passam a utilizar ferramentas de inteligência artificial e o volume de dados tratados aumenta.

Além disso, o problema ganha contornos mais importantes quando a governança depende de profissionais que já possuem outras prioridades. Inventários deixam de ser atualizados, planos de ação perdem acompanhamento, treinamentos são postergados e evidências deixam de ser produzidas ou organizadas.

Outro sinal está na distância entre aquilo que a empresa estabeleceu formalmente e o que acontece na operação. Uma política pode estabelecer como determinada tecnologia deve ser utilizada, mas isso não significa que todas as áreas estejam seguindo a orientação ou que a organização consiga demonstrar como as decisões são tomadas.

O uso de inteligência artificial torna essa questão ainda mais relevante. Ferramentas podem ser incorporadas diretamente pelas áreas de negócio, sem que exista uma avaliação prévia sobre os dados utilizados, os fornecedores envolvidos, os riscos associados ou às informações que podem ser compartilhadas.

Aqui a dificuldade não está necessariamente na ausência de conhecimento dentro da empresa. Pode estar na capacidade de transformar esse conhecimento em uma estrutura que acompanhe continuamente a operação.

O modelo combinado
Por isso, contar com apoio externo não precisa significar substituir a equipe interna. Um modelo combinado pode preservar o conhecimento que a organização já possui e acrescentar capacidade especializada em pontos específicos.

A equipe interna continua sendo fundamental para entender os processos, prioridades e riscos do negócio. Uma estrutura externa pode complementar esse trabalho com metodologia, tecnologia, atualização regulatória, experiência em diferentes setores e apoio na avaliação de riscos, avaliação de fornecedores, gestão de incidentes, avaliação de sistemas de IA e organização de evidências.

Essa combinação também pode ajudar quando a empresa precisa acelerar a estruturar um programa ou lidar com um aumento repentino de demandas. O apoio pode ser contínuo ou concentrado em projetos específicos, dependendo da maturidade e das necessidades da organização.

No fim, a escolha entre manter a governança exclusivamente dentro da empresa ou combinar recursos internos e externos depende da capacidade de cada estrutura de sustentar esse trabalho ao longo do tempo. Ter uma equipe interna não é, por si só, garantia de que a governança esteja acompanhando a operação. Da mesma forma, contratar apoio especializado não substitui o conhecimento que precisa permanecer dentro da organização.

Governança de IA e de privacidade exigem acompanhamento contínuo, responsabilidades claras e capacidade de transformar decisões em processos e evidências. O modelo adotado precisa dar conta dessas necessidades à medida que a empresa, seus sistemas, fornecedores e usos de tecnologia evoluem.

(*) Fundadora e CEO da Axis AI & Privacy Governance e advogada especializada em propriedade intelectual e proteção de dados, com mais de 10 anos de experiência assessorando empresas na implementação e operação de programas de governança de privacidade e de IA, conformidade regulatória e gestão de riscos.