Fabiana Monteiro (*)
À frente da Nortis, Carlos Terepins acredita que resultados sustentáveis são consequência de equipes fortes, propósito claro e liderança humana.
Carlos Terepins cresceu em um ambiente onde a educação, a cultura e o pensamento crítico faziam parte da rotina. Filho de um empresário do setor de confecções e de uma psicóloga e psicanalista formada pela USP, conviveu desde cedo com professores, intelectuais e profissionais de diferentes áreas. Essa diversidade de perspectivas ajudou a moldar sua forma de enxergar o mundo e influenciou diretamente sua trajetória profissional.
Formado em Engenharia Civil pela Universidade de São Paulo em 1977 e especializado em Administração de Empresas com foco em Finanças pela Fundação Getulio Vargas, iniciou sua carreira em um Brasil marcado pela instabilidade econômica. Empreender no setor imobiliário durante as décadas de 1970 e 1980 exigia coragem, resiliência e capacidade de adaptação diante de um cenário de inflação elevada e constantes mudanças econômicas.
Ao longo dos anos, aprendeu que a formação acadêmica representa apenas uma parte do desenvolvimento profissional. Curiosidade, capacidade de relacionamento, disposição para aprender e flexibilidade para enfrentar mudanças tornaram-se competências tão importantes quanto o conhecimento técnico. Essa visão o acompanharia durante toda a carreira.
Da formação à descoberta do propósito
Os primeiros empreendimentos surgiram ainda no final da década de 1970, quando participou da criação de pequenas incorporadoras. Eram negócios modestos, desenvolvidos em um período de enormes desafios econômicos. As dificuldades impostas pela hiperinflação e pelos sucessivos planos econômicos obrigaram muitos empresários a repensarem estratégias e modelos de gestão.
Foi também nessa fase que Carlos iniciou uma jornada de autoconhecimento que considera fundamental para suas decisões futuras. O processo permitiu compreender melhor suas motivações e definir com mais clareza o tipo de empresa que desejava construir. Mais do que crescer financeiramente, queria criar uma organização capaz de competir de forma sustentável, respeitando valores e pessoas.
A estabilização econômica proporcionada pelo Plano Real abriu novas oportunidades para o setor imobiliário. Com o mercado mais previsível, tornou-se possível planejar investimentos de longo prazo e estruturar projetos mais ambiciosos. Foi nesse contexto que surgiu uma das decisões mais importantes de sua carreira.
Construir empresas é construir pessoas
No final da década de 1990, Carlos participou do processo que resultaria na criação da Even. A operação envolveu negociações complexas, a entrada de investidores e a profissionalização da gestão. Poucos anos depois, a companhia receberia aportes de private equity, abriria capital na bolsa e se consolidaria como uma das maiores incorporadoras do país.
Durante esse período, desenvolveu uma convicção que se tornou uma marca de sua liderança: empresas não crescem apenas por meio de estratégias financeiras ou decisões de mercado. Elas crescem por meio das pessoas.
Em diferentes momentos, afirmou que sua principal competência não estava nas áreas financeira, comercial ou técnica. Seu diferencial sempre foi a capacidade de identificar talentos, reunir profissionais qualificados e criar um ambiente em que diferentes especialistas pudessem atuar de forma integrada. Para ele, líderes não precisam saber tudo; precisam cercar-se de pessoas que dominem suas áreas de atuação e criar condições para que elas entreguem o melhor de si.
Essa postura colaborativa ajudou a companhia a atravessar momentos complexos, incluindo a crise financeira global de 2008. Com planejamento estratégico e disciplina na execução, a empresa conseguiu superar desafios, preservar sua capacidade de crescimento e fortalecer sua posição no mercado.
A força de recomeçar
Após 37 anos dedicados à construção da Even, Carlos decidiu encerrar seu ciclo na companhia. A saída foi emocionalmente difícil, mas trouxe uma das maiores demonstrações do legado que havia construído. O reconhecimento recebido de colaboradores e colegas reforçou sua convicção de que os resultados mais importantes de uma carreira não estão apenas nos números, mas no impacto gerado sobre as pessoas.
Em 2016, ao lado dos filhos, iniciou um novo capítulo com a criação da Nortis. O projeto começou de forma simples, em um pequeno espaço de coworking, poucos meses após deixar o comando de uma das maiores construtoras do Brasil. O que parecia um recomeço transformou-se em mais uma história de crescimento. Em poucos anos, a empresa lançou dezenas de empreendimentos, consolidou sua operação e se tornou uma referência no segmento imobiliário.
Ao refletir sobre sua trajetória, Carlos costuma destacar que ninguém vence todas as batalhas. Para ele, fracassos, mudanças de rumo e momentos de incerteza fazem parte da construção de qualquer carreira relevante. O importante é aprender com as experiências, preservar a capacidade de adaptação e seguir adiante.
Hoje, aos 71 anos, continua defendendo princípios que considera fundamentais: estudar, trabalhar, manter a curiosidade intelectual e cultivar bons relacionamentos. Sua história demonstra que liderança não se resume ao exercício do poder. Trata-se da capacidade de reunir pessoas em torno de um propósito comum, construir confiança e criar condições para que talentos cresçam juntos. É dessa combinação entre sensibilidade, propósito e trabalho coletivo que surgem os legados mais duradouros.
(*) Chairman, CEO da Editora Global Partners – Affiliated to Institute of Coaching at McLean Hospital, associate Harvard Medical School – (ICPA). Conselheira de empresas.




