
De acordo com o The Washington Post, o design pouco convencional da picape elétrica da Tesla, que inclui recursos já presentes em outros modelos da marca, como portas com fechaduras eletrônicas, pode impedir equipes de resgate de salvar pessoas presas dentro do veículo.
Vivaldo José Breternitz (*)
O jornal identificou ao menos dois casos de mortes em Cybertrucks em que socorristas ou passageiros não conseguiram acessar ou sair rapidamente da cabine.
No caso que trouxe mais impacto, em um acidente ocorrido em 2024, em Piedmont, na Califórnia, um transeunte não conseguiu libertar pessoas presas dentro de um Cybertruck em chamas. As portas eletrônicas, acionadas externamente por botões ocultos, não abriram. Quando o homem finalmente conseguiu quebrar os vidros “à prova de balas”, três dos ocupantes já haviam morrido, queimados ou por inalação de fumaça – apenas um passageiro sobreviveu.
As mortes expõem propostas de design “futuristas” da montadora, que parecem priorizar estética em detrimento da funcionalidade, colocando em risco a vida dos passageiros. As portas do Cybertruck, assim como em outros modelos da Tesla, são acionadas eletricamente e dependem de uma central touchscreen, de um aplicativo no celular ou de botões ocultos. Do lado de fora, não há maçanetas visíveis, e esses sistemas podem falhar facilmente em acidentes.
Há mecanismos de emergência, mas confusos e de uso difícil. No caso das portas traseiras, por exemplo, é preciso puxar um cordão escondido sob o revestimento do compartimento inferior, sem qualquer identificação, exceto em versões vendidas na China.
“É mais fácil sair de um porta-malas do que do banco traseiro de um Tesla após um acidente”, disse ao Washington Post Phil Koopman, especialista em segurança automotiva e professor da Carnegie Mellon University; nos Estados Unidos a lei exige que porta-malas tenham uma alavanca de liberação iluminada.
A construção “à prova de apocalipse”, como Elon Musk descreve seu Cybertruck, torna o veículo quase impenetrável. A picape é revestida por uma camada de aço inoxidável, que segundo Musk é capaz de deter balas. Após o acidente em Piedmont, um relatório citou “acesso precário para bombeiros” como um dos fatores que dificultaram o combate às chamas. Fotos mostram marcas de ferramentas usadas pelos bombeiros para tentar abrir a cabine, sem sucesso.
Além dos acidentes que causaram mortes, o jornal identificou pelo menos mais uma dúzia de casos, desde 2019, em que motoristas e passageiros de Teslas ficaram presos nos carros, em situações de risco de morte.
A China já fixou regras para fechaduras de veículos elétricos, visando impedir os problemas que vêm sendo encontrados nos Tesla.
(*) Doutor em Ciências pela Universidade de São Paulo, é professor, consultor e diretor do Fórum Brasileiro de Internet das Coisas – [email protected].



