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Inteligência artificial vai à guerra

em Tecnologia
quarta-feira, 04 de março de 2026

A guerra na Ucrânia, iniciada em 2022, foi considerada o primeiro conflito do século XXI a empregar todo o ferramental da tecnologia atual, especialmente os drones.

Vivaldo José Breternitz (*)

Agora, o ataque ao Irã dá início a uma nova era: é o primeiro conflito em que a IA desempenha um papel central: relatórios dão conta que o modelo de IA Claude, da Anthropic, foi utilizado nas primeiras operações conjuntas dos EUA e Israel contra o Irã, auxiliando nos ataques a alvos estratégicos.

O uso da IA reacendeu preocupações sobre sua incorporação à chamada “cadeia de morte”, o processo militar que vai da identificação de alvos à execução de ataques. Especialistas alertam que isso pode acelerar decisões críticas e pressionar humanos a aceitarem sugestões geradas por máquinas antes que os mecanismos tradicionais de supervisão possam atuar.

Acredita-se que Claude teria sido usado nos ataques que atingiram alvos importantes e resultaram na morte do líder supremo iraniano, aiatolá Ali Khamenei; seu uso ocorreu dias após o governo Trump classificar a Anthropic como “risco à cadeia de suprimentos”.

O governo ordenou que agências federais e militares deixem de usar as ferramentas da empresa, após o fracasso nas negociações sobre restrições que a Anthropic exigia: proibição de vigilância doméstica em massa e de armas totalmente autônomas. Apesar disso, as ferramentas da Anthropic continuam em uso enquanto são gradualmente substituídas por modelos da OpenAI.

Em 2024, o modelo Claude foi integrado a um sistema desenvolvido pela empresa de tecnologia militar Palantir, adotado por diversos países, inclusive os EUA. O sistema promete “melhorar drasticamente a análise de inteligência e apoiar decisões estratégicas”.

“IA está fazendo recomendações sobre o que atacar, e isso é mais rápido, em certos aspectos, do que a velocidade do pensamento”, afirmou Craig Jones, professor da Universidade de Newcastle e especialista em cadeias de morte, ao jornal The Guardian. “Você tem escala e velocidade. Está realizando ataques ao mesmo tempo em que neutraliza a capacidade de resposta do inimigo. Isso levaria dias ou semanas em guerras anteriores. Agora, tudo acontece ao mesmo tempo.”

Já o Irã, afirmou em 2025 que estava usando IA desenvolvida internamente em seus sistemas de mísseis. No entanto, os principais usos da tecnologia parecem estar concentrados em operações como ataques de phishing, DDoS e outras tentativas de intrusão contra alvos americanos, além de campanhas de propaganda.

O que já ficou claro é que inteligência artificial deixou de ser coadjuvante na guerra moderna. Está se tornando um elemento central tanto no ataque como na defesa, encurtando o ciclo vigilância/ análise/ação.

Além dos riscos imediatos de erros graves, cresce a preocupação sobre como esse uso pode esse intensificar no futuro e o que isso pode significar para a humanidade.

(*) Doutor em Ciências pela Universidade de São Paulo, é professor, consultor e diretor do Fórum Brasileiro de Internet das Coisas – [email protected].