
Nas grandes empresas de tecnologia o primeiro trimestre de 2026 foi um dos mais turbulentos em termos de demissões.
Vivaldo José Breternitz (*)
Entre janeiro e março, quase 80 mil pessoas foram demitidas em empresas desse tipo em todo o mundo, sendo mais de três quartos dessas baixas concentradas nos Estados Unidos. O dado que mais chama atenção é que quase metade delas, cerca de 37,6 mil postos, está ligada à automação e à inteligência artificial, segundo fontes do mercado.
Especialistas, no entanto, alertam que pode ser cedo para concluir que os sistemas de IA sejam diretamente responsáveis por muitas dessas perdas. Babak Hodjat, CTO da Cognizant, grande empresa de TI, disse ao Nikkei Asia que muitas companhias frequentemente usam a IA como justificativa em processos de reestruturação, sem que essa seja a verdadeira causa, afirmando que “às vezes, a IA vira bode expiatório em situações em que a empresa quer reduzir o quadro de pessoal, e a culpa é atribuída à tecnologia”.
Hodjat acrescentou que a verdadeira onda de mudanças no mercado de trabalho provocada pela IA ainda está por vir. “Vai levar de seis meses a um ano até que as companhias comecem a ver ganhos reais de produtividade”, disse, observando que a transição “será dolorosa para todos nós, simplesmente porque é uma transição”.
Outros executivos também alertam para mudanças estruturais mais amplas. Dario Amodei, CEO da Anthropic, e Jim Farley, CEO da Ford, preveem que a IA pode eliminar até metade dos empregos de nível inicial no setor administrativo nos Estados Unidos.
Um estudo da Universidade de Stanford já identificou impactos em funções de programação de computadores de nível básico e atendimento ao cliente, enquanto uma simulação do MIT estimou que a automação poderia substituir 11,7% da força de trabalho americana.
Há empresas, porém, que veem um cenário diferente. A IBM, por exemplo, triplicou as contratações de nível inicial neste ano, argumentando que, embora a IA execute grande parte do trabalho rotineiro, a supervisão humana continua essencial. A posição da companhia está alinhada a dados europeus que indicam que negócios que investem fortemente em inteligência artificial tendem a expandir sua força de trabalho, em vez de reduzi-la.
A Cognizant, cuja operação depende fortemente de pessoas, também adota uma abordagem cautelosa. A empresa criou laboratórios de IA para desenvolver ferramentas personalizadas para clientes, mas Hodjat afirmou que não há planos de cortes. Pelo contrário: funcionários serão treinados para trabalhar em conjunto com sistemas de IA, e a expectativa é até de contratar mais profissionais de nível júnior.
Neste momento, a indústria de tecnologia da informação vive um momento de transição, em que o impacto da IA sobre o emprego é real, mas ainda não totalmente definido. Se isso resultará em uma contração duradoura ou em uma redefinição do trabalho, dependerá menos da automação em si e mais da forma como as empresas se adaptarão.
(*) Doutor em Ciências pela Universidade de São Paulo, é professor, consultor e diretor do Fórum Brasileiro de Internet das Coisas – [email protected].
Demissões na área de TI poderão se tornar o novo normal – Jornal Empresas & Negócios


