Como o Brasil perde e ganha no atual contexto internacional

Rodrigo Sodré (*)

Com a ignição da guerra na Ucrânia, os boicotes à Rússia e as consequências decorrentes, o mundo esperava um baque econômico de proporções dantescas.

No entanto, o Brasil chegou a ganhar em algumas frentes, beneficiado pela alta das commodities e pela entrada de capital estrangeiro, o que provocou uma bem vinda apreciação cambial. O país, contudo, não deve ficar nessa conjuntura temporária para apostar em sua retomada.

Com a fuga de capitais do Leste Europeu, o mercado viu no Brasil uma alternativa interessante, por se tratar de uma nação emergente de tamanho semelhante ao da Rússia. Com a taxa Selic em alta, o país se tornou ainda mais atrativo, o que provocou uma queda substancial do dólar ao longo das últimas semanas.

A cotação em alta da moeda é um dos principais fatores que alimentam a inflação, já que afetam praticamente toda a economia. O índice de preços também tende ter uma folga a partir de agora devido à adoção da bandeira tarifária verde sobre a energia elétrica, outro item com efeitos bastante abrangentes.

Porém, se por um lado tivemos sorte num panorama tão hostil, por outro, não se pode negar os efeitos nocivos da guerra por aqui. Mesmo sendo distante o risco da falta de fertilizantes (produto bastante importado de Rússia e Ucrânia), o preço desses insumos tem alcançado níveis relativamente altos, o que pode impactar o preço dos alimentos no Brasil.

Mas o maior perigo inflacionário vem da mesma alta das commodities que beneficia os produtores brasileiros, sobretudo do petróleo, que vem pesando nos sucessivos reajustes dos combustíveis. Em março, o IPCA alcançou 1,62%, o maior valor para o mês desde 1994 — portanto, antes da vigência do Plano Real. Em 12 meses, o indicador atingiu 11,3%, maior patamar em 18 anos.

Tamanho aumento acima do esperado foi causado, em boa parte, pela alta dos combustíveis, que afeta os dois grupos que mais subiram e que têm o maior peso no índice: transportes (3,02%) e alimentação e bebidas (2,42%) — este último também impactado por questões climáticas. Além disso, a alta foi disseminada, com oito dos nove grupos registrando crescimento no mês.

Esse pesadelo inflacionário não persegue somente o Brasil. A taxa anual de inflação na Zona do Euro alcançou 7,5% em março, batendo recordes. Já o índice de preços ao consumidor dos Estados Unidos, em fevereiro, foi a 7,9%, o maior patamar em quatro décadas. E o futuro próximo é bastante incerto, já que os preços das commodities tendem a seguir oscilando enquanto não houver um cessar-fogo entre as partes envolvidas na guerra.

Diante dessa incerteza, as autoridades monetárias precisam equilibrar o combate à inflação e o crescimento econômico após o momento mais grave da pandemia.
Nos Estados Unidos, o FED elevou a taxa básica de juros em 0,25%, o primeiro aumento desde 2018, com perspectiva de novos aumentos ao longo de 2022. Já no Brasil, o Copom subiu a Selic em um ponto percentual, a 11,75% — a maior desde 2017.

Antes da divulgação do último IPCA, o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, previa a taxa a 12,75%, no máximo, até o fim do ano. Mas a surpresa negativa já provoca previsões de 13% e até 14% ainda este ano, o que seria extremamente nocivo para a retomada econômica do país. Além dos juros sufocantes, a paz na Europa também poderia arrefecer as cotações das commodities, de modo a interromper esse ciclo de encarecimento dos combustíveis.

No entanto, essa normalização, somada a uma elevação dos juros norte-americanos e de outros países desenvolvidos, poderia causar uma fuga de capitais da América Latina e a volta da pressão cambial na inflação. A alta de preços ainda corroeu o poder de compra dos brasileiros, freando um dos principais motores da nossa economia, que é o consumo.

Nos próximos meses, há de se observar como cada um desses fatores se comportará e o que o Brasil pode ganhar ou perder com mudanças na conjuntura

(*) – É economista e sócio da BRA, escritório credenciado da XP Investimentos.

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