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Recuperação judicial: estratégia antes do colapso

em Mercado
sexta-feira, 24 de abril de 2026

Crescimento dos pedidos e mudança de mentalidade empresarial colocam a reestruturação como ferramenta de preservação de negócios e não apenas de crise

O avanço dos pedidos de recuperação judicial no Brasil, somado à alta de 18,9% nas falências no primeiro semestre de 2025, tem exposto uma mudança gradual na forma como empresários lidam com dificuldades financeiras. Dados da Serasa Experian indicam que mais de 7,3 milhões de empresas enfrentam problemas de liquidez no país, acumulando mais de R$ 170 bilhões em dívidas, cenário que pressiona decisões e amplia a busca por alternativas estruturadas de reorganização.

Marcos Pelozato, advogado, contador e especialista em reestruturação empresarial com 14 anos de atuação, afirma que a recuperação judicial começa a ser reposicionada dentro das empresas. “Existe um erro de percepção muito forte. A recuperação judicial não é o fim da empresa, é uma ferramenta para reorganizar e preservar negócios que ainda são viáveis”, diz.

A mudança, segundo ele, passa por uma visão menos reativa e mais estratégica. Em vez de recorrer ao instrumento apenas em situações extremas, empresários começam a considerar a reestruturação como parte da gestão. “Quando a decisão é tomada cedo, existe margem para negociar, reorganizar dívidas e proteger a operação. Quando se espera o colapso, as alternativas diminuem drasticamente”, afirma.

Mesmo com esse avanço, a adesão ainda é considerada baixa frente ao volume de empresas em dificuldade. Em 2024, cerca de 2,2 mil companhias recorreram à recuperação judicial no país, número reduzido diante do universo de negócios inadimplentes.

Para o especialista, a principal transformação em curso não é apenas técnica, mas também cultural. A reestruturação empresarial passa a incorporar uma dimensão mais humana na condução dos processos. “A empresa não é só um CNPJ. Existe uma estrutura por trás, com pessoas, empregos e histórias. Quando se entende isso, a condução da recuperação muda completamente”, aponta.

Essa abordagem impacta diretamente a forma como as decisões são tomadas e executadas. Escritórios e consultorias deixam de atuar apenas em momentos críticos e passam a ser acionados para orientar estratégias preventivas e sustentáveis. “A reestruturação bem conduzida não é sobre encerrar problemas, é sobre dar continuidade ao negócio de forma organizada”, completa.

O especialista aponta cinco práticas para estruturar uma reestruturação empresarial com visão estratégica – Antes de recorrer a medidas formais, a reorganização exige uma leitura aprofundada do negócio e decisões coordenadas. Algumas práticas se destacam nesse processo:

• Diagnóstico real da situação – O primeiro passo é entender com precisão o nível de endividamento, fluxo de caixa e compromissos assumidos. Sem esse mapeamento, qualquer decisão tende a ser limitada.

• Antecipação da decisão – Empresas que agem nos primeiros sinais de dificuldade preservam mais valor e ampliam a capacidade de negociação com credores.

• Reorganização financeira estruturada – A renegociação de dívidas e revisão de custos são essenciais para restabelecer equilíbrio e evitar o agravamento da crise.

• Apoio técnico especializado – A atuação conjunta de advogados, contadores e consultores aumenta a assertividade das decisões. “Falta orientação qualificada, e isso faz com que empresas viáveis acabem fechando por erros na condução”, afirma.

• Mudança na mentalidade de gestão – A reestruturação exige revisão de práticas internas, com foco em controle, planejamento e sustentabilidade de longo prazo.

Apesar da evolução, o estigma ainda é um entrave relevante. Parte dos empresários associa a recuperação judicial ao fracasso, o que contribui para decisões tardias e reduz as chances de recuperação efetiva.

Ao mesmo tempo, fatores como juros elevados, restrição de crédito e aumento de custos operacionais tendem a ampliar a demanda por soluções estruturadas. A expectativa é que a reestruturação empresarial ganhe espaço como instrumento contínuo de gestão, e não apenas como resposta emergencial.

“O empresário precisa entender que buscar ajuda não é sinal de fraqueza, mas de responsabilidade. A diferença entre fechar e se reestruturar está, muitas vezes, no momento em que essa decisão é tomada”, conclui.

O enfraquecimento da recuperação judicial e a ascensão do turnaround – Jornal Empresas & Negócios