
Com avanço consistente no varejo e migração para setores como construção civil, estratégia ganha força como alavanca de margem, posicionamento e competitividade
As marcas próprias seguem ampliando participação no consumo no Brasil e já começam a influenciar a estratégia da indústria. Segundo a Associação Brasileira de Marcas Próprias e Terceirização (ABMAPRO), o segmento mantém trajetória de crescimento no país, acompanhando um movimento global em que esses produtos já representam mais de 30% das vendas em mercados europeus, de acordo com a PLMA (Private Label Manufacturers Association). No Brasil, a expansão é puxada por um consumidor mais sensível a preço e por empresas que buscam maior controle sobre margem e distribuição.
Em 2025, esse avanço deixou de ser restrito ao varejo alimentar e passou a ganhar espaço em setores como construção civil, ferramentas e bens duráveis. O movimento acompanha um cenário de crédito mais caro e pressão sobre custos, que exige maior eficiência operacional e novas estratégias comerciais.
Gustavo Braz, CEO do Grupo PMD, o crescimento das marcas próprias representa uma mudança estrutural na cadeia. “A marca própria deixou de ser uma alternativa do varejo e passou a ser uma estratégia da indústria. Ela permite controlar melhor a margem, evitar conflito de canal e fortalecer a presença em regiões específicas”, afirma.
A mudança altera a lógica tradicional de relacionamento entre fabricantes e distribuidores. Em vez de disputar espaço com múltiplas marcas dentro do mesmo canal, empresas passam a desenvolver linhas exclusivas ou operar com marcas próprias voltadas a parceiros estratégicos. Isso reduz a concorrência direta e aumenta o engajamento do distribuidor. “Quando existe exclusividade, o distribuidor passa a defender aquela marca como ativo do negócio. Isso aumenta o giro, melhora a negociação e cria uma relação mais sólida”, diz.
O movimento também responde a um ambiente econômico mais desafiador. Dados da Confederação Nacional da Indústria mostram que 94,2% das empresas industriais brasileiras são de pequeno porte e enfrentaram deterioração nas condições financeiras ao longo de 2025. Nesse contexto, estratégias que ampliam a margem e reduzem a dependência de terceiros ganham relevância.
Na prática, as marcas próprias permitem maior controle sobre preço, posicionamento e portfólio. Empresas passam a ajustar produtos de acordo com demandas regionais, reduzir custos de intermediação e responder com mais agilidade às mudanças de mercado. A lógica deixa de ser apenas volume e passa a ser construção de valor ao longo da cadeia.
Para o consumidor final, o impacto aparece principalmente na ampliação da concorrência. Com mais marcas disponíveis, há pressão sobre preços e maior acesso a produtos com bom custo-benefício. Em setores técnicos, como construção, esse movimento também tem ampliado o acesso a soluções antes restritas a marcas consolidadas. “O consumidor passa a ter mais opção e mais poder de escolha. Quando a cadeia fica mais eficiente, esse ganho chega na ponta em forma de preço e variedade”, afirma Braz.
Ao mesmo tempo, o avanço das marcas próprias exige maior maturidade das empresas. A construção de marca, mesmo em modelos exclusivos, depende de consistência, qualidade e estratégia de longo prazo. Sem isso, o ganho de margem pode comprometer a percepção de valor.
No cenário atual, o crescimento das marcas próprias deixa de ser uma tendência restrita ao varejo e passa a redesenhar a indústria. Ao integrar produção, marca e distribuição, empresas ampliam controle sobre a operação e ganham competitividade em um ambiente mais pressionado e seletivo.



