277 views 5 mins

Isenção do IR até R$ 5 mil: qual o impacto real na economia?

em Mercado
segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Ampliação da faixa de isenção eleva renda disponível das classes baixa e média, e coloca à prova a capacidade do governo de compensar a perda de arrecadação sem pressionar o cenário fiscal

O ano de 2026 marca uma das alterações mais relevantes da política tributária brasileira recente com a entrada em vigor da isenção do Imposto de Renda para salários de até R$ 5 mil. A medida não cria uma isenção do zero, mas expande de forma significativa o limite anterior, que era de R$ 3.036 mensais, alterando a distribuição da carga tributária e o fluxo de renda disponível das famílias. Segundo estimativas organizadas pelo Ministério da Fazenda e pela Receita Federal, o total de brasileiros isentos sobe de 76% para cerca de 86% das pessoas com algum rendimento, enquanto os 14% que seguem pagando imposto concentram aproximadamente 60% da renda nacional.

Para Daniel Abrahão, economista da iHUB Investimentos, o impacto social é direto. “O núcleo do ganho está nas classes baixa e média formal, composta por trabalhadores com carteira assinada, parte do funcionalismo, aposentados e profissionais de serviços que ganham entre R$ 4 mil e R$ 5 mil. Esse grupo antes pagava Imposto de Renda, ao menos parcialmente, e agora passa a ficar totalmente isento”, explica.

Consumo reage no curto prazo, mas inflação e juros acendem alerta

Do ponto de vista macroeconômico, a principal consequência imediata da medida é o aumento da renda líquida disponível para consumo. Estimativas apontam que a renúncia fiscal anual fique entre R$ 25 bilhões e R$ 30 bilhões, valor que permanece com as famílias e tende a circular na economia. “Como essa faixa de renda tem alta propensão a consumir, boa parte do alívio tributário deve virar gasto em itens essenciais, como alimentação, transporte, contas básicas, farmácia e serviços, além de pagamento de dívidas”, explica o economista.

Esse movimento pode sustentar a atividade econômica no curto prazo, mas também exige atenção do ponto de vista inflacionário. Com a economia operando com nível elevado de utilização da capacidade instalada, um impulso de demanda pode pressionar preços, especialmente no setor de serviços.

“O efeito não é automático. Se parte relevante desse dinheiro for usada para quitar dívidas, o impacto inflacionário é menor. Já se o consumo acelerar de forma generalizada, o Banco Central tende a reagir com juros mais altos por mais tempo ou com um ritmo mais lento de cortes da Selic”, afirma.

Risco fiscal, compensações e leitura dos investidores

No campo fiscal, a ampliação da isenção traz um risco concreto de perda de arrecadação, ainda que desenhado para ser parcialmente compensado. O governo aposta em mecanismos como a tributação mínima sobre altas rendas e a cobrança de dividendos enviados ao exterior para neutralizar boa parte do impacto. Para o mercado, porém, o foco está menos na intenção e mais na execução.

Apesar de beneficiar um grande contingente de contribuintes, a mudança não altera a forte concentração de renda no topo. Mesmo com 86% da população isenta, esse grupo responde por cerca de 40% da renda nacional, enquanto os 14% que seguem pagando IR concentram aproximadamente 60%.

Abrahão destaca que o desafio está em equilibrar justiça social e estabilidade macroeconômica. “A isenção até R$ 5 mil reconhece o peso regressivo do imposto sobre a base da renda, em um país ainda marcado com altos níveis de diferenças sociais, mas só se sustenta se vier acompanhada de compensações críveis. O risco não está em aliviar quem ganha menos, mas em falhar na construção desse equilíbrio fiscal, que é estreito e fundamental para o futuro da economia brasileira”, conclui.