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Modelo de gestão fragmentado perde espaço no novo ambiente de negócios

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sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Pressão regulatória avanço tecnológico e maior complexidade operacional expõem riscos de decisões isoladas nas empresas brasileiras

O novo ambiente de negócios no Brasil tornou obsoleto o modelo de gestão fragmentado, baseado em decisões isoladas entre áreas como contabilidade, jurídico, tecnologia e gestão. Em um cenário marcado por maior complexidade regulatória, digitalização acelerada e fiscalização integrada, empresas que não operam como ecossistemas conectados passaram a assumir riscos sistêmicos, com impactos diretos sobre competitividade, custos e previsibilidade da operação.

Carla Martins, especialista em gestão de negócios e crescimento empresarial e vice-presidente do SERAC, avalia que decisões tomadas de forma desconectada, ainda comuns em empresas de médio porte, têm gerado passivos silenciosos. “Hoje, uma escolha tributária mal alinhada com o jurídico ou com a tecnologia pode gerar efeitos em cadeia. O problema não aparece no primeiro mês, mas se materializa depois em multas, retrabalho ou perda de eficiência”, afirma.

Estudos do Banco Mundial, da OCDE e de consultorias globais apontam que o Brasil segue entre os países com maior complexidade regulatória e tributária para as empresas, exigindo alto nível de conformidade e controle interno.

Ao mesmo tempo, pesquisas internacionais sobre transformação digital indicam que a maioria das organizações ainda opera com baixo nível de integração entre áreas críticas, como finanças, jurídico e tecnologia, o que amplia vulnerabilidades em ambientes mais fiscalizados.

Na prática, esse descompasso ajuda a explicar por que muitas empresas crescem em faturamento, mas perdem controle da operação. “Crescer sem integração amplia a exposição ao risco. O negócio até avança, mas fica frágil”, observa.

Segundo ela, a fiscalização cruzada entre órgãos públicos, impulsionada pelo uso intensivo de dados e sistemas integrados como SPED, eSocial e DCTFWeb, elevou o custo de decisões isoladas. “A empresa passou a ser analisada como um todo, não mais por departamentos”, observa.

Esse novo contexto tem levado organizações a reverem a lógica de contratação de serviços. Em vez de múltiplos fornecedores independentes, cresce a busca por modelos integrados, capazes de conectar informação, estratégia e execução. “Quando contabilidade, jurídico, tecnologia e gestão trabalham de forma articulada, a empresa ganha previsibilidade. As decisões deixam de ser reativas e passam a considerar o impacto global”, afirma.

Carla ressalta que a integração não elimina a especialização técnica. “Não se trata de misturar funções, mas de conectar responsabilidades. Cada área mantém sua expertise, mas opera com visão de conjunto”, explica.

Da gestão por áreas à lógica de ecossistema – Para as empresas que desejam se adaptar a esse novo ambiente, a transição exige mudança de mentalidade antes mesmo da adoção de novas ferramentas. O primeiro passo é mapear como as decisões circulam internamente e identificar pontos de ruptura entre áreas. “Toda decisão financeira tem reflexo jurídico, tecnológico e estratégico. Ignorar isso é assumir um risco desnecessário”, alerta.

Na prática, a integração passa pela revisão de processos, pelo alinhamento de indicadores e pela unificação de informações relevantes. Carla alerta, no entanto, que muitas empresas erram ao tentar resolver o problema apenas com tecnologia. “Sistema sem governança só acelera erros”, diz.

Cinco pontos que a especialista indica antes de integrar a gestão – Antes de avançar para um modelo integrado, a executiva destaca que a mudança deve ser gradual e orientada por prioridades estratégicas. Não se trata de uma transformação abrupta, mas de um processo estruturado.

  1. Mapear riscos sistêmicos – Identificar decisões que hoje são tomadas de forma isolada e avaliar seus impactos em outras áreas
  2. Unificar informações-chave – Garantir que dados financeiros, jurídicos e operacionais estejam conectados e atualizados
  3. Alinhar governança e processos – Definir responsabilidades claras e fluxos de decisão integrados
  4. Escolher parceiros com visão transversal – Priorizar fornecedores capazes de dialogar com diferentes frentes do negócio
  5. Monitorar indicadores integrados – Acompanhar métricas que reflitam a saúde da empresa como um todo, e não apenas por departamento

Para Carla, empresas que adotam essa lógica reduzem riscos, aumentam eficiência e ganham capacidade de decisão em ambientes instáveis. “O mercado não penaliza apenas quem erra. Ele penaliza quem insiste em modelos que já não acompanham a realidade”, conclui.

Ao defender a operação empresarial como um ecossistema integrado, a executiva reforça que a competitividade, hoje, depende menos de soluções isoladas e mais da capacidade de conexão entre áreas. Integrar deixou de ser diferencial e passou a ser condição básica para sustentar o crescimento.