Vitor Ramos (*)
O mercado brasileiro de benefícios corporativos está diante de uma das mudanças mais profundas de sua história recente. A publicação do Decreto nº 12.712/2025 não apenas altera regras operacionais do Programa de Alimentação do Trabalhador (PAT), mas também força empresas a revisarem modelos de negócio que permaneceram praticamente inalterados por décadas. O que está em jogo vai muito além da conformidade regulatória: trata-se da necessidade de encontrar novas formas de crescer, competir e gerar receita em um ambiente que se torna mais aberto, competitivo e sujeito a novos riscos.
Durante anos, o ecossistema sobreviveu de um modelo de subsídio cruzado: grandes operadoras ofereciam rebates e descontos agressivos para atrair diretores de RH, compensando essas condições com taxas de intercâmbio (MDR) que sufocavam os restaurantes e prazos de liquidação que passavam dos 30 dias. Era uma disputa puramente baseada em arbitragem financeira e tamanho de rede credenciada.
Essa lógica acabou. Com o fim definitivo dos rebates, o teto de 3,6% fixado para o MDR e a obrigatoriedade de repasse aos estabelecimentos em até 15 dias, as margens de lucro foram esmagadas. Para completar o cenário de insônia do setor, a interoperabilidade e a portabilidade compulsória (com prazo final de implementação em novembro deste ano) retiram das empresas o controle sobre a ponta física. O cartão de benefícios passou a operar exatamente como uma bandeira de crédito universal: vai passar em qualquer maquininha do mercado.
À medida que nos aproximamos de um novo ciclo competitivo, as operadoras de benefícios enfrentam a complexa equação de crescer e preservar margens enquanto entregam uma jornada digital fluida e segura. Para equilibrar essa balança, a eficiência operacional e a experiência do usuário tornaram-se os novos diferenciais de retenção do setor, exigindo a substituição de processos burocráticos pela fricção inteligente. Ao aplicar verificações pontuais e automatizadas de biometria e dados apenas quando necessário, as empresas eliminam o abandono no cadastro e reduzem custos drasticamente, ganhando a capacidade de absorver volumes muito maiores de transações sem a necessidade de inflar suas estruturas físicas e operacionais.
Essa evolução do ecossistema também exige que a prevenção a fraudes deixe de ser reativa e passe a acontecer de forma proativa no onboarding, antes que o risco se transforme em um incidente transacional. A próxima fronteira da confiança exige ir além da pessoa física para realizar uma verificação profunda do ecossistema corporativo (KYB), analisando a situação cadastral de parceiros, mídias negativas e o Quadro de Sócios e Administradores (QSA). Para sustentar o crescimento escalável de múltiplos públicos — englobando empresas contratantes, usuários e estabelecimentos —, torna-se mandatório unificar automação e inteligência de dados, garantindo que as decisões automáticas respeitem estritamente o apetite de risco e a governança de cada negócio.
Nesse cenário de transição, a tecnologia deixa de ser apenas uma ferramenta de suporte para se tornar um elemento estratégico de proteção, mitigação de riscos e conformidade. Processos automatizados de onboarding, verificação de identidade, monitoramento de parceiros e background check contínuo passam a desempenhar papel central na construção de operações mais resilientes.
A entrada de novos participantes e a interoperabilidade criam caminhos fantásticos para a inovação, mas também exigem maior atenção a riscos relacionados ao cadastramento de empresas irregulares, estabelecimentos sem atividade compatível com as regras do programa, identidades sintéticas e fraudes documentais sofisticadas.
O grande divisor de águas para as operadoras de benefícios nos próximos anos não será apenas adaptar sistemas para cumprir leis. Será a capacidade de construir modelos sustentáveis e dinâmicos, que usem a tecnologia de verificação para orquestrar fluxos inteligentes, gerando valor real para empresas e trabalhadores em uma era onde a confiança digital é o ativo mais valioso do mercado.
(*) Head de Enterprise Sales da idwall, empresa de tecnologia que disponibiliza plataforma de gestão de identidade digital e background check. – E-mail: [email protected].


