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Geraldo Nunes, jornalista e memorialista,
integra a Academia Paulista de História.
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Zé Nogueira: uma longa jornada que durou 89 anos de muita atividade

Ele nunca fez uso dos microfones para apresentar um programa, ou mesmo anunciar alguma das milhares de músicas que programou na estação de rádio onde trabalhou, mas era uma figura conhecida no meio, especialmente entre os profissionais que passaram pela Rádio Eldorado

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Zé Nogueira e o repórter Décio Caramigo, com o quadro e a dedicatória de Adoniram Barbosa. Foto: Acervo Decio Caramigo

Olhos azuis e cabelos grisalhos e longos, parecidos aos de Albert Einstein. Assim era o personagem de uma longa jornada que durou 89 anos de muita atividade, sempre repleta de alegria, comunicação e inteligência.

José Nogueira Neto nos dava a impressão de ter descoberto a eterna fonte da juventude, até a manhã do último 30 de maio, vítima de uma pneumonia. Faria 90 anos em 14 de julho próximo. Se manteve funcionário da emissora desde sua contratação até o último dia de vida. O convite para trabalhar naquela casa veio de madrugada, meio de surpresa e feito por ninguém mais que Ruy Mesquita, há quase 50 anos. Depois de muitos goles de vinho e conversas versando sobre música e futebol, os assuntos preferenciais entre os dois, Nogueira explicou sua situação: “A dificuldade, Dr. Ruy, é que eu não consigo acordar cedo, não posso então trabalhar em uma rádio!”

Para solucionar a questão, o dono da emissora disse que ele não iria precisar bater ponto e a partir do horário em que chegasse faria a programação musical e que se fosse bem-feita, não haveria problemas.

Nascido no bairro do Brás e apaixonado por canções e pela vida dos artistas, Zé Nogueira passou a acompanhá-los desde a juventude, produzindo shows ou assessorando cada um deles, quando chamado, se tornando amigo de praticamente todos os cantores, cantoras e compositores desde a década de 1940 até os dias atuais, inclusive gente do exterior.

Do cantor e músico de jazz norte-americano Louis Armstrong recebeu de lembrança o lenço que invariavelmente carregava na lapela do paletó, durante as apresentações. De Adoniran Barbosa ganhou um quadro com sua foto autografada com dedicatória no verso e que certa vez serviu para nos ajudar a esclarecer uma séria dúvida. Na ocasião nos procurou na Rádio Eldorado um editor musical que dizia ter guardado consigo letras de canções inéditas de Adoniran não registradas e nem lançadas em disco. Sugeri que procurasse os Demônios da Garoa que teriam interesse em gravar por serem os grandes divulgadores das canções do compositor.

O editor nos disse, entretanto, que os procurou e não houve interesse da parte deles. As letras das canções anotadas em guardanapos, como se escritas durante uma conversa em um bar, continuam garranchos deixando a entender que foram escritas por uma pessoa semianalfabeta e muitos atribuem essas características a Adoniran Barbosa. Levei então o assunto ao Zé Nogueira, sem saber da existência do quadro que ele guardava consigo em sua sala na Rádio Eldorado. Ele então me mostrou a dedicatória do compositor, escrita com letra bonita e um belo autógrafo.

 

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Olhos azuis e cabelos grisalhos e longos, parecidos aos de Albert Einstein. Foto: Jotabê Medeiros

“Além de compor, Adoniran Barbosa fez cinema, teatro e televisão atuando como ator e comediante, escrevendo e decorando textos, era uma pessoa que sabia ler e escrever muito bem”, explicou Nogueira esclarecendo assim que as letras atribuídas ao compositor não eram verdadeiras, disso a recusa dos Demônios da Garoa em gravar. Desse quadro guardamos uma foto tirada com Zé Nogueira tendo ao seu lado o repórter Décio Caramigo que também trabalhou pela emissora.

Outro episódio interessante nos foi contado no Bar e Restaurante Mutamba, na Rua Major Quedinho, ao lado do prédio onde a Rádio Eldorado funcionou durante anos. Zé Nogueira nos disse que quando tinha 21 anos aconteceu no Brasil a Copa do Mundo de 1950 e que foi até o Rio de Janeiro assistir a finalíssima no Maracanã. Ele e seus amigos viajaram à noite, confortavelmente em um trem e ao chegarem seguiram direto para o estádio que estava repleto logo de manhã.

O dia seguiu alegre até a hora do jogo e todos tinham certeza da vitória até que aconteceu o inesperado gol de Gighia para o Uruguai. “Então desabou sobre nós uma tristeza profunda ocasionando um silêncio jamais sentido onde duzentas mil pessoas começaram a ir embora ouvindo apenas os gritos dos uruguaios comemorando dentro de campo.

Foi algo impressionante, ninguém trocava uma só palavra e o que se ouvia depois, na rampa de saída do Maracanã, era somente o arrastar dos tamancos usados pela população da época. Voltamos para São Paulo em um trem lotado e de pé. Nos mantivemos em silêncio até a chegada, porque ninguém sentia nenhuma vontade de conversar. O mundo tinha acabado, o futebol morreu um pouco em nossos corações naquele dia”, relatou Zé Nogueira, sobre o Maracanazo.

Na Rádio Eldorado, além da programação musical, José Nogueira Neto atuou na produção de programas como 'Galeria' trazendo ao ouvinte os grandes nomes da MPB em depoimentos especiais e o 'Jô Soares Jam Session', entre outros. Participou também da organização de eventos como o Prêmio Eldorado de Música e o Prêmio Visa MPB Instrumental. Se houvesse mais espaço ou tempo também haveria mais histórias para eu contar sobre Zé Nogueira.

(*) Geraldo Nunes, jornalista e memorialista, integra a Academia Paulista de História. (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.).

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