Especialistas listam desafios para criação de política de cuidados com idosos

Especialistas listam desafios para criação de política de cuidados com idosos

Participantes de debate na Câmara dos Deputados disseram que o Brasil ainda é iniciante no tema e precisa se estruturar melhor. Tendências internacionais apontam para a manutenção em casa de pessoas
mais velhas que necessitam de cuidados especiais

Mateus Bruxel/Ag.RBS
  • Save

Em 2050, cerca de 30% da população brasileira terá 60 anos ou mais.

O Brasil começa a dar os primeiros passos no que diz respeito a uma política nacional de cuidados com as pessoas mais vulneráveis, principalmente as idosas. A Câmara dos Deputados analisa um projeto da deputada Cristiane Brasil (PTB-RJ), que estabelece diretrizes para nortear o tratamento do assunto por municípios, estados e União.

O objetivo fundamental é criar um conjunto de ações integradas, destinadas a cuidar e a promover o bem-estar, a saúde, a segurança, a autonomia e a independência dos cidadãos, consideradas as limitações e as necessidades de cada um.

O tema foi discutido na última quinta-feira (14) em reunião da Comissão de Seguridade Social e Família, a pedido da deputada Flávia Morais (PDT-GO), relatora da proposta no colegiado. “Hoje nós temos uma estrutura muito precária nos municípios e nos estados. Para melhorar e ampliar isso, precisamos de um planejamento, com previsão de captação de recursos, e de uma rede padronizada”, justificou a parlamentar.

As demandas por cuidados de longa duração são maiores nos grupos formados por pessoas muito idosas. Muitas vezes, os idosos ncessitam de ajuda para executar atividades básicas, como levantar-se de uma cadeira, ou mais complexas, como ir ao banco e preparar refeições. Há ainda os que necessitam de cuidado constante.

Exemplos

Maria Tereza Pasinato: as várias instâncias de poder precisam atuar conjuntamente para que a política nacional seja viável.
  • Save
No encontro, três especialistas convidadas trouxeram exemplos de países desenvolvidos, onde o processo de envelhecimento está mais avançado, e os cuidados de longa duração surgiram em função das necessidades de separar seus custos crescentes dos demais gastos com saúde.

“As nações são consideradas envelhecidas quando acima de 14% da população têm mais de 65 anos. O Brasil está caminhando muito rápido. Talvez em 2020 vamos ser considerados uma nação envelhecida”, observou a consultora legislativa da Câmara, Symone Maria Bonfim.

O que precisa ser discutido, ressaltou a consultora, é como financiar essa política e que serviços oferecer, entre outros pontos. As tendências internacionais apontam para alternativas que mantenham o idoso em seus próprios lares; para o desenvolvimento de programas voltados para os cuidadores informais dos idosos; e para a descentralização administrativa do programa.

Na Alemanha, por exemplo, o sistema de seguridade social é financiado por benefícios originários das contribuições obrigatórias dos trabalhadores assalariados e dos aposentados. No país europeu, a proteção da dependência é tratada como direito, superando a tradição de responsabilização da família.

Flávia Morais: é preciso haver planejamento, com previsão de captação de recursos, e uma rede padronizada de atendimento.
  • Save
Entre as opções de atendimento a idosos, os participantes do debate destacaram os centros-dia, onde a pessoa passaria o dia, retornando à noite ao convívio familiar. “A família pode trabalhar, mas traz o idoso para convivência, sem abandoná-lo”, afirmou Flávia Morais.

Dificuldades
O Brasil ainda está longe de atingir um padrão ideal de cuidados, segundo a especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental no Ministério do Planejamento, Maria Tereza Pasinato. Conforme explicou, apesar de o País possuir um sistema de previdência e de assistência social que conseguiu dar conta da ausência de renda na idade avançada, a garantia de um salário por si só é incapaz de suprir as necessidades específicas de um idoso.

“Se o idoso não tem família ou se a estrutura familiar mudou, o Estado tem de ser instado a cuidar desse idoso. Deve-se haver uma atividade sistêmica dos ministérios e as várias instâncias de poder precisam atuar conjuntamente. A elaboração pode vir da União, porém a implementação ocorre em estados e municípios”, comentou Pasinato. Na opinião dela, vários dos sistemas brasileiros, principalmente o de previdência, necessita de reajustes fortes.

idosos 21 temporario
  • Save
E mesmo o de saúde, disse ainda, apesar de ela considerar fantástico o SUS. “Reorganizar isso de forma sistêmica é um desafio”. Flávia Morais concordou. “É um grande desafio. A intersetorialidade do cuidado aborda a acessibilidade, a cargo do Ministério das Cidades. Também trazemos o Ministério da Educação quando precisamos qualificar os cuidadores”, exemplificou a deputada.

Cuidadores
Sobre os cuidadores, a professora do Departamento de Sociologia da Universidade de Brasília (UnB), Analia Soria Batista, afirmou que esses profissionais, em sua maioria mulheres, precisam de ajuda e de apoio. “Há recursos, como os centros-dia, que buscam aliviar a tarefa de cuidar, que é muito difícil e pode afetar o cuidador por questões emocionais ou por cansaço”, salientou (Agência Câmara).

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

0 Shares
Share via
Copy link
Powered by Social Snap